A ignorância é a origem de todos os erros

por Amélia Santos | 2013.11.28 - 12:17

No final do ano letivo passado, apareceu num teste intermédio da disciplina de História, do 9º ano, um texto/documento intitulado “Portugal no tempo de D. João V visto por viajantes estrangeiros”. Li e reli o texto. Tomei notas e refleti. As semelhanças com a realidade atual são mais que aquelas que seriam desejadas… A História é efetivamente cíclica, e acredito que, se a maior parte dos nossos governantes a conhecesse bem, se veria ao espelho… e, talvez não cometesse os mesmos erros reiterada e inconsequentemente…

Mas, neste caso, o que é mais grave, e preocupante, é que parecem existir traços de personalidade, ou deformações, que se transmitem “geneticamente” e já estão inscritos num certo ADN das pessoas que têm estado à frente dos nossos destinos. A sucessiva impunidade de quem brinca com os dinheiros públicos, de quem os desvia, ou os gasta indevidamente, de quem sabe que não vai ter que prestar contas a ninguém, tem levado a que os incompetentes cheguem ao poder, não por mérito, mas porque são especialistas em marketing, em vender imagens , ilusões e fantasias…  No caso português, talvez se trate de um qualquer fado, uma negra sina, para a qual estamos predestinados e da qual dificilmente nos conseguiremos libertar…

Assim, veja-se o que um viajante estrangeiro diz, neste texto, sobre o rei D. João V (séc. XVII e XVIII), aquele rei que foi excelentemente caraterizado por José Saramago no Memorial do Convento:

“D. João V tem boa figura e veste habitualmente com grande magnificência (…) num dia de festa, na capela real, cobria-lhe as vestes um longo manto de seda preta semeada de estrelas bordadas a ouro (…) Ama excessivamente a magnificência e a ostentação”.

Se olharmos para o Portugal de hoje, são ainda estes os governantes que desfilam à nossa frente, com  as devidas adaptações na indumentária, mas sem abdicar dos botões de punho em ouro e de um bom fato comprado nas mais luxuosas lojas de Beverly Hills… São manifestamente descendentes de D. João V e dele herdaram os mesmos gostos, tiques e «afetos»… continuam, tal como ele, a amar excessivamente a magnificência e a ostentação… Na sua visão crítica, este forasteiro diz que em Portugal se habituaram  a “soberbos palácios, a numerosa criadagem e a várias carruagens e muitos cavalos”… Tudo se mantém inalterável.  Multiplicam-se os secretários, os sub-secretários, os assessores, os chefes de gabinete, os motoristas, as mordomias e também os cavalos… das máquinas de que necessita toda esta gente para se ver transportada na sua azafamada vida… Os caprichos e a opulência tão bem retratados no Memorial do Convento mantêm-se. Aquele rei D. João V sujeitou sem escrúplulos os seus súbditos à servidão para alimentar a sua vaidade e a sua glória… Tudo isto me é tão, desafortunadamente,  familiar… Basta olhar, também, para a realidade local. Para aqueles que governaram, por exemplo, o meu concelho, o de Trancoso, nos últimos 27 anos…

José Saramago quis, por meio de um, ou vários episódios da nossa História, fazer refletir sobre o presente, sobre os sucessivos erros dos «loucos» que continuam a querer grandeza quando o espírito é exíguo e tão pobre… Mas quem leu Saramago? Quantos dos nossos governantes leram o Memorial do Convento? Que doutrina estará por detrás da sua recente retirada dos programas de Português no 12º ano?

A prepotência e a ignorância dos nossos governantes matam-nos. Seca a energia de quem trabalha e de quem quer trabalhar. Inibe a criatividade. Empobrece o ser humano. E, como se não chegasse,  incita à esperteza saloia, ao compadrio, ao facilitismo, à preguiça, à inércia!

Isto é um enorme paradoxo, quando sabemos que os emigrantes portugueses, em qualquer parte do mundo, são bem vistos, porque são trabalhadores, empenhados e ambiciosos. Deve ser esta a razão por que o nosso Primeiro Ministro nos manda emigrar… O que acontece cá dentro? Cá dentro, os que ainda têm uma ténue esperança, aguardam a vinda, não de um louco D. sebastião, mas  de governantes sérios, cultos, democratas, trabalhadores, que saibam dar o exemplo, porque esse tem de vir sempre de cima! E, quem conhece  a História, quem entende o valor da cultura e do que é verdadeiramente importante, sabe fazer opções, sabe planear a longo prazo, sabe ser o modelo de que todos os portugueses necessitam como do pão para a boca, porque como disse Frei Rosa Viterbo:

“A ignorância é a origem de todos os erros”.

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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