A Fábula da Manta Rasgada

por Alberto Correia | 2014.01.15 - 12:51

Por demais conhecido esse episódio que eu chamo a fábula da manta rasgada que aconteceu há muito, muito tempo, numa terra de eu não sei onde, lá onde os filhos tinham como perverso costume levar os velhos pais ao cimo de uma despida montanha onde os abandonavam com o frouxo resguardo de uma manta.

Por muitos anos assim aconteceu, reza a fábula, até que um dia, quando o filho se retirava, o pai o chamou: – Filho, espera… E com o jeito e a força que lhe restava rasgou a manta a metade.

Que é, meu pai? Pergunta o filho.

Toma esta metade. E estendeu-lhe parte da manta. Guarda-a para quando o teu filho te vier trazer.

Agasalhou-se com a metade da manta rasgada e sentou-se numa pedra.

Diz a fábula que o filho reconsiderou, carregou para a aldeia o velho pai e essa prática cruel teve ali fim, nessa terra de eu não sei onde que talvez fosse a nossa. E por muitos anos assim foi.

Mas os homens são de memória curta. E os filhos dos homens do nosso tempo voltaram a abandonar os velhos pais não já no vizinho monte mas numa cama de hospital ou na solidão de um Lar. (Que a cama do hospital, sobretudo a desse hospital de rectaguarda, é precisa. Mas que se lhe associe ao menos a episódica e amorosa presença, o merecido carinho e de dignidade se acompanhe o fim. Que o Lar é imprescindível, porventura. Mas que não se deixe morrer ninguém em solidão!…).

E amplio a lição da fábula tão ajustada aos novos tempos em que uma geração de governantes, jeito dos filhos activos de uma pátria que encontra similitude na aldeia antiga, pegam nos seus “velhos”, os aposentados, abandonam-nos e levam-lhes até o último resguardo da manta, a mal urdida pensão que recebiam.

Clamam de longe como o velho pai na montanha. Mas estes desnaturados filhos dos homens dos dias de hoje tapam os ouvidos para não ouvir. E para não se sentirem culpados. Mas são.