A excepção

por Gaëlle Istanbul | 2013.12.16 - 20:51

Tem de ser Thomas. Vais desculpar a tua mãe mas têm-me dito demasiadas vezes que o mundo não muda. Que a maldade e a injustiça fazem parte da vida. Que não vale a pena fazermos melhor. Dizem que sonho demasiado, que os meus pés não estão assentes na terra, que sou demasiado ingénua e que gasto demasiada energia com o que não tem emenda.
Vais-me desculpar porque, ainda assim, tenho medo que a memória se esvaia. Tenho receio que os teus gestos se confundam com o quotidiano e que os nossos se sobreponham aos teus.
Sabes, desde pequena, acreditei que não existem limites na vida e que se o mal é uma máquina mortífera, que todos enrola e que todos apanha, também pode ser boicotada. Não a tiros e a bombas, claro, mas com imenso cuidado, trabalho, minúcia, determinação e bastante amor.
Tu, meu filho, vieste dar razão às minhas crenças. Crenças terrenas, não daquelas que apelidam de milagres e que não se sabe como se produziram ou de onde vieram. Conto-te.
Um dia, antes mesmo do teu aniversário, vieste pedir-nos, a mim e ao teu pai, para abrirmos um excepção.
Abrir uma excepção, Thomas, mas não tínhamos já tudo combinado?
O dia do teu aniversário aproximava-se e neste ano quisemos e pudemos organizar-te uma festa. A vossa classe era demasiado grande, mesmo que dividida em três grupos, cada um composto por vinte alunos, em três salas concomitantes. Então, decidimos, os três em conjunto, que convidarias apenas as meninas e os meninos do teu grupo, para não provocar desacatos, tristezas ou exclusões. Desta forma, todos entenderiam.
Mesmo assim, insististe. Tinhas ‘mesmo’, disseste, de convidar mais dois outros meninos. Porquê Thomas, porquê? Tu próprio achavas mal convidar apenas rapazes, convidar apenas os teus amigos. Tu próprio achavas que era bem mais engraçado ter raparigas e rapazes a soprarem as velas contigo, os amigos mais íntimos, mas também os menos chegados. Ainda assim, tínhamos de abrir uma excepção, explicaste-nos. Querias convidar o Johannes e o Khalil, por dois motivos diferentes. Querias convidar o Johannes porque no recreio da escola havia sempre quezílias entre vocês e querias pôr um fim a isso. Mostraste-nos a importância de o convidar. Seria uma forma de lhe mostrares que estavas disponível e que, talvez, se pudessem tornar amigos.
E porquê o Khalil? Porque o Khalil, referiste, é o melhor amigo do Johannes.
Intrigados, esperámos pela continuação da tua explicação. Respondeste-nos que caso não se entendessem, o Johannes teria o seu melhor amigo, com quem brincar, e assim não ficaria tão triste.
Abrimos a excepção. Os convites do teu grupo foram entregues pela tua professora e os dois outros foram postos discretamente nas mochilas.
Chegou o dia da festa, estavas feliz, radiante. Já não festejavas o teu aniversário há dois anos. Quando partimos de Portugal, deixámos de ter condições financeiras para isso.
Dizia-te que transpiravas alegria, suavas entusiasmo. À medida que as tuas amigas e amigos iam chegando, o teu sorriso ia-se expandindo. E chegou a Emma, a Kine, o Jaroslav e o Daniil. Chegaram os outros meninos e meninas, e também o Johannes e o Khalil.
A festa foi animada, repleta de actividades e de jogos, houve cantigas e uma caça ao tesouro. Cantámos o teu aniversário e apagaste as velas. Brincaram, brincaram até à exaustão. Passadas duas horas, os vossos olhos já pediam descanso e felizmente os pais começaram a chegar. Despediste-te dos teus amigos um a um, ajudaste-nos a arrumar a sala, desligámos as luzes e entregámos o espaço ao silêncio.
Cá fora, com as mãos cheias de sacos e balões, a tiritar de frio, pusemos tudo na mala e enfiámo-nos no carro, não fossem as rajadas de vento empurrar-nos para o mar.
O teu pai, sentado ao volante, arrancou lentamente com o nosso velho carro a roncar. E tu, lá atrás, de cinto apertado e muito composto, exclamaste: ‘Ainda bem que convidei o Johannes. Agora já somos amigos. E do Khalil também.’
Acenámos a cabeça, nós, os dois adultos cá à frente, entre sorrisos, um orgulho prudente e uma comoção contida.
Tem de ser, dizia-te eu, no início desta carta. Tem de ser. Temos de dizer bem alto ao mundo que são estas pequenas mudanças que farão a diferença. Que o teu futuro pode ser muito melhor e mais justo que o nosso. É preciso investir, um pouco, um pouco mais a cada dia que passa. É preciso pelo menos tentar e fazer ouvido mouco aos mais cépticos e tocar no coração dos insensíveis.
Tu, pequeno, da imediatez dos teus 8 anos, Thomas, foste grande. A maturidade dos teus gestos ensinou-te que o teu próximo dia de escola será mais divertido ainda. Que é possível aprender a amar.
Vais desculpar-me, Thomas, mas era preciso dizer ao mundo que os Mandela também somos todos nós. Se assim o quisermos.

Gaëlle Istanbul
Bergen, 2013

Gaëlle Istanbul (1972, Mulhouse, França) passou a sua infância em França e Portugal. Estudou comunicação social e cultural em Lisboa, mas foi com o seu filho que mais aprendeu. Graças às viagens e aos acontecimentos da sua vida tornou-se contadora de estórias, através da escrita, da fotografia e do vídeo. Co-edita a Bypass Editions (http://bypass.pt), aprende norueguês e sobe montanhas, para que não lhe falte o ar.

Pub