A CASTANHA NO SÉCULO XVI: O TESTEMUNHO DE RUI FERNANDES

por Alberto Correia | 2015.08.27 - 20:11

 

Rui Fernandes é cidadão natural de Lamego por onde sua vida se estende, na sua maior parte, ao longo da primeira metade do século XVI. De sua vida pouco se conhece, para além dos informes que deixou no curioso e ilustrativo escrito publicado recentemente como Descrição do terreno ao redor de Lamego duas léguas (1531-1532), onde se reclama de feitor das lonas e bordates do Rei, ofício que desempenhava em parceria com seu sogro, natural do Porto, e certamente com outros mercadores. Verdadeiramente integrava uma empreendedora elite local que terá dado princípio a essa construção do Douro vinhateiro que se revela de modo fruste na leve referencia ao povoamento de cepas nas escalvadas encostas de xisto e para a qual o rio Douro se constituía como fortíssimo canal para escoamento das mercadorias que abundavam nas férteis terras do aro de Lamego que ele descreve em torno das duas léguas observáveis no pouso de um imaginoso compasso e que, no regresso, carregariam nos ancoradouros do Porto uma diversidade de produtos de que a região interior mais carecia, artigos de imediata necessidade ou de luxuosa serventia.

Da sua obra de que tão importantes informes se retiram no que toca ao retrato que faz da sociedade da cidade em que habita, Lamego, do diversificado registo de uma fervilhante economia centrada nesse eixo do grande “rio de mau navegar”, da minuciosa descrição que faz da Serra do Montemuro, terra e gente, só mais tarde superada por Amorim Girão, retiramos, ao caso, a interessante nota que escreve acerca da castanha produzida, consumida e mercadejada nesse compasso de duas léguas ao redor da urbe lamecense.

Item soma a castanha de dízimos 47.660 alqueires, de maneira que soma o que se colhe na terra 476.600 alqueires; a qual castanha muita dela se enterra e se vende na Quaresma e outras secam e a picam, que chamam castanha picada. Desta castanha picada se faz grande carregação pelo Douro para Lisboa e para o Algarve e para as ilhas; e quando o ano é estéril os homens pobres moem a dita castanha e fazem dela pão, e é muito farto e muito doce, que chamam falacha; e de outra castanha seca cascuda cevam muitos e mui formosos porcos das mais saborosas e mais carnes que há em todo o Reino. O preço desta castanha verde [é] em ano de bonança a três e quatro réis o alqueire da rebordã, e da longal a cinco e a seis pela medida grande desta terra, e da picada a 20 e a 25 e a 30 o alqueire. E no tempo dela todos os caminhos e estradas são cobertos; e por as não poderem apanhar trazem os porcos pelos soutos, que as comam, e todos os caminhantes e pessoas que passam fazem magustos sem lhe ser proibido. E há castanheiros que dão 60 alqueires de castanha e há destes muitos; há castanheiro que debaixo dele se colherão 300 homens à sombra. (In Rui Fernandes, Descrição do Terreno ao redor de Lamego duas léguas, Beira Douro, Associação de Desenvolvimento do Vale do Douro, 2001, p. 38).