“A Árvore da Vida”

por Amélia Santos | 2013.12.27 - 14:42

Nos dias que antecederam o Natal vi, em DVD e no computador, um daqueles filmes que sempre escapam a quem não vive nos centros urbanos, onde existem variadas alternativas cinematográficas. «A Árvore da Vida» de Terrence Malick seduziu-me, antes de tudo, pelo título – metáfora fértil, por meio da qual podemos enveredar por um sem número de caminhos exploratórios de sentidos. Também pela curiosidade que se instala nos “amantes das palavras” em conhecer qual a via escolhida pelo realizador para dar corpo a este título. Claro que o facto de ter ganho a Palma de Ouro no festival de Cannes em 2011 e de ter Brad Pitt e Sean Penn no elenco, dão toda a credibilidade ao que se espera da abordagem. No entanto, as agradáveis surpresas acontecem também em campos não espectáveis…

Depois de algumas interrogações e interpelações retiradas do livro de Job, que nos remetem para o mistério primordial que os textos bíblicos encerram, deparamo-nos com a bela e inspiradora Jessica Chastain, a figura feminina da família que vive no Texas nos anos 50, uma surpresa agradável pela sua capacidade de fazer derramar emoções várias nos espectadores. Apesar de a história desta família constituir apenas uma espécie de microuniverso do filme, Jessica Chastain arrasa com a sua presença física carregada de espiritualidade. Serve de guia na permanente descoberta de outros universos, de outras árvores, de outras vidas.

É um filme onde a imagem ganha uma força adicional, pelas evocações que desperta, pela beleza a que nos expõe em diferentes planos – as cores bem vivas, o verde da árvore, o girassol, o sol que desponta por entre ramagens, o fumo e a luz sobre um fundo negro – pelas referências ao fogo e à água. Pela união dos elementos numa espécie de explosão de vida, que atribui significado à morte, porque o antes e o depois fundem-se para dar sentido às coisas, às interrogações, ao sofrimento, às dúvidas existenciais.

«A Árvore da Vida» revela-se uma intensa experiência espiritual, mais pelo que sugere e não tanto pelo que afirma. É o discurso poético que vive neste mar de emoções, onde a música também exerce um papel preponderante, quando celebra a vida e quando aplaca a dor. Vale a pena embarcar neste desafio e compreender que a natureza é imparável e nos proporciona vivências ímpares. Bastará estar disponível e alerta e vigilante.

Em época de festas natalícias, onde tantas vezes o material se sobrepõe ao espiritual, este filme pode muito bem ser o mote para uma reflexão sobre o nosso papel no mundo e aquilo que realmente é importante. Todos somos árvore que crescemos, ramificamos, damos frutos e irremediavelmente morremos. Das qualidades de cada árvore, não me interessa aqui falar. Mais ou menos bonitas, mais ou menos altas, mais ou menos frondosas, somos árvore. Árvore que carrega também a morte. É essa presciência, ou a ausência dela, que faz toda a diferença naquilo que somos em cada gesto e em cada momento. A Árvore da vida é também a árvore da morte. São a mesma e a única árvore que crescemos. Fundem-se naquilo que é primordial e cosmológico. A nós resta-nos dar brilho à nossa passagem por esta floresta.

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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