A arte de esquecer…o que não interessa…

por Amélia Santos | 2015.04.22 - 16:11

 

Esta pequena reflexão nasce de uma conversa com a minha amiga Marta, a Martinha, a pessoa mais simpática que conheci num ano conturbado e muito difícil. A prova viva de que, mesmo nas piores fases das nossas vidas, aparecem anjos para não nos deixar desmoronar…

A propósito de alguns personagens desagradáveis que se cruzaram no nosso (meu) caminho, eu disse à Martinha que já tenho em mim uma capacidade e uma competência, treinadas ao longo dos anos, de esquecer o que mal me fez um dia… Se não é esquecer verdadeiramente, é não lembrar propositadamente. É não deixar que me perturbe, que se intrometa, que destrua, que desassossegue o espírito… E ela, ao ouvir-me nesta converseta, lançou-me o desafio de escrever um pequeno texto sobre o assunto. E eu, que me debato com a ausência de temas para reflexão, aproveitei a deixa…

De facto, a maturidade da idade adulta trouxe-me essa aprendizagem. Conseguir entrar no processo de esquecimento das coisas que me fizeram, ou fazem mal. Quem diz coisas, diz pessoas. Parece-me que tenho pronto, “à beira mágoa”, um caixote de lixo invisível, onde vou colocando tudo o que não passa disso: lixo.

Mas para que esse processo aconteça, agora, com naturalidade, muito contribui o facto de me sentir rodeada de pessoas extraordinárias! Ao longo da minha vida tenho encontrado, nos mais variados caminhos que já percorri, pessoas de excelência. Umas sábias e simples. Outras cultas e encantadoras. Genuínas e gentis. Inteligentes. Alegres, bem-humoradas, boa onda…que nos levam para o lado mais solar da vida. Que me fazem ri e sorrir. Que me ensinaram a valorizar a pequena expressão de autenticidade e delicadeza, enfim, que fazem de nós melhores seres humanos… São essas pessoas excecionais que povoam a minha vida, os responsáveis pela minha capacidade de deitar fora o que me faz mal!

Curiosamente, ouvi por estes dias a escritora Inês Pedrosa falar um pouco de si e da sua vida. Das deceções amorosas que teve, mas também de deceções com amigos, em determinada fase da sua juventude… e utilizou uma expressão que imediatamente lhe roubei e usurpei: “Os vilões da minha vida foram engolidos pelos heróis que nela foram entrando e ficando….”

Isto é, efetivamente, aquilo que eu sinto. As pessoas mais especiais, os amigos genuínos, os bons colegas, os chefes humanistas, um aluno que nos mima…destroem completamente, sem o saber e sem se darem conta de tal feito, todos os vilões, torpes, os biltres que, por vezes, entram na minha vida. É um fenómeno ao nível das armas de destruição maciça. Não fica nada a provocar desconforto. Os restos ou vestígios que possam ficar, utilizo-os para construir personagens de fantoche em histórias infantis. São caricaturas sem vida própria. Sem alma, nem complexidade. Apagam-se, mal se escondem as mãos que os manipulam no teatrinho…

Chegamos a este patamar depois de conviver com pessoas fora de série. Com pessoas singulares. Mas, sobretudo, com seres humanos que nos transmitem boas energias. Que nos “desejam sol. E chuva, quando a chuva é precisa”… E é, afinal, tão fácil ajudar a que o dia dos que nos rodeiam seja um pouco melhor. Às vezes, basta um sorriso, um gesto de simpatia ou um pequeno elogio!…

“A espantosa realidade das cousas /É a minha descoberta de todos os dias.

Cada cousa é o que é, /E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,

E quanto isso me basta.”

E, assim, tal como o nosso Alberto Caeiro: “Saúdo todos os que me lerem, tirando-lhes o chapéu largo”…

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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