O cheiro e a ciência

por Elvira Gaspar | 2013.12.04 - 18:41

A palavra “cheiro” vem do Latim FLAGRARE, “emitir odor”. A palavra tem como significado a percepção dos odores através do estímulo do sistema olfactivo. Pode tratar-se de qualquer odor desagradável (cheiro a pés, cheiro a peixe) ou agradável, designando-se, neste caso, de aroma, perfume, ou fragrância – é o caso do cheiro a rosas…

O cheiro (smell) é imediato e emocional e tem vindo a tornar-se, para nós humanos, numa “ferramenta” importante. Usamo-lo para detectar compostos químicos  (no ar), contribuindo os nossos receptores olfactivos para distinguir os seus odores. Tem ajudado os humanos a protegerem-se, ajudando na prevenção, por exemplo, do consumo de alimentos estragados (são característicos o cheiro da manteiga rançosa, do peixe e carne em decomposição) e evitando/minorando situações perigosas (caso do cheiro a gás).

O olfacto/cheiro é o nosso sentido mais primitivo e está localizado na região do cérebro afecta às emoções, memória e creatividade.

Após os acontecimentos de 11 de Setembro, a cidade de Nova Iorque ficou com um cheiro particular intenso, persistente. Amostras de ar foram colhidas no “Ground Zero” e analisadas quimicamente. O resultado das análises permitiu recriar o cheiro da cidade com o objectivo de o mesmo ser utilizado para fins terapêuticos; amostras desse “aroma” foram usadas, em ambientes diferentes,  com pessoas que ficaram psicologicamente fragilizadas, de modo a ser rompida a associação cheiro/situação dramática e a ser possível a essas pessoas poder continuar a viver na cidade.

Não são raros os relatos pessoais de um cheiro e sua associação/relação com uma circunstância/período de vida. Ou seja, o cheiro/olfacto também ele ligado ao prazer e ao desejo e à sua química, mas não só… A entrada em livrarias e bibliotecas que contêm livros antigos desperta em muitos de nós o reviver de livros/leituras há muito efectuadas e o recordar das circunstâncias em que foram feitas… O cheiro a livros antigos é característico e reconhecido e está relacionado com o processo de decomposição da celulose, havendo emissão de compostos químicos voláteis responsáveis pelo odor característico.

O cheiro a pão quente, a relva acabada de cortar, a terra molhada pela chuva acabada de cair…são bons exemplos de cheiros diferentes e bem característicos e da sua importância psico-fisiológica. A perda do cheiro/olfacto é hoje utilisada como método de detecção precoce, em estadio assimptomático, das doenças de Alzheimer e Parkinson. A razão científica é que a perda de cheiro representa a perda de capacidade cerebral relativamente aos estímulos químicos, uma vez que o cérebro, estando a funcionar normalmente, responde a estímulos eléctricos, mas também aos químicos, via células nervosas.

Um estudo relativamente recente na população estudantil de universidades dos Estados Unidos mostrou que, para as raparigas, o factor determinante na atracção que os rapazes exercem sobre elas é devida ao seu cheiro. No inquérito, segundo elas, este factor mostrou ser muito mais importante do que a boa aparência masculina, a compleição física ou mesmo a inteligência… Já com os rapazes, o cheiro veio na segunda posição… em primeiro lugar, previsivelmente, permanece a aparência física feminina. Este é mais um dos estudos que explicam a importância da indústria dos perfumes (e aromas) na actualidade.

As feromonas são substâncias químicas, sem cor e muitas vezes sem odor conscientemente perceptivel, produzidas naturalmente nos organismos, em particular pelas glândulas sudoríparas, que afectam o comportamento  de animais e humanos a um nível sub-consciente. Moléculas emitidas por um indivíduo e que provocam mudança/perturbação psicológica e/ou comportamental num outro indivíduo. A função das feromonas é a de intensificar a atracção sexual e portanto tem por objectivo prolongar e preservar as espécies.

Houve tempos em que as especiarias foram usadas para “mascarar” os maus-cheiros dos humanos, tornando possível a sua convivência, co-habitação e até intimidade, ausentes que estavam os hábitos de higiene. Com a evolução civilizacional, as pessoas tomam banho frequentemente, o que tem como efeito a eliminação de grande parte das suas feromonas. Acresce que, com a progressão da idade há cada vez menos segregação de feromonas e vai havendo perda das capacidades olfactivas. É assim que a indústria dos aromas (incluindo a dos óleos essenciais) e perfumes atinge a importância que tem hoje. Os perfumes na sua composição, complexa, contêm feromonas – daí haver perfumes femininos e masculinos, de acordo com o mercado ao qual se destinam.

A indústria dos perfumes é complexa em termos químicos, sendo uma área altamente dependente da investigação efectuada em diferentes áreas científicas: química, comunicação feromonal nos humanos, influência comportamental das feromonas,  importância do olfacto no ser humano e os seus efeitos cerebrais e emocionais, química das emoções e dos afectos, entre outras. Ou seja, cheirar-se bem (e seus efeitos) não é nada  simples…

Nascida em 1960, em Luanda, Angola. Pais Beirões (Pai de Mangualde, Mãe de Cantanhede) - raízes genéticas e culturais que me "desassossegam". Ensino secundário em Mangualde (um privilégio!) (transição colégio-liceu, 1975-1978). Licenciatura em Engª Química pela Universidade de Coimbra (1983). PhD em Química, especialidade Química Orgânica, pela Universidade Nova de Lisboa (1994). Docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa desde 1984.

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