O tempo das castanhas

por Alberto Correia | 2013.11.30 - 13:31

Dizem que o tempo das castanhas é o tempo do Outono. Mas não é. O tempo das castanhas corre, intenso e fecundo, pelo ano fora e eu julgo que poderíamos iniciar o seu ciclo vital pelo dealbar do mês de Abril quando se dá conta do amoroso despertar de uma Terra-Mãe no Inverno adormecida, quando uma seiva nova começa a reverdescer os galhos dos castanheiros. O tempo das castanhas alonga-se pelo mês de Maio quando o passaredo se começa a ajeitar por entre os ramos para fazer os ninhos, quando o cuco, à sua sombra entra de cantar, quando a corculher e o cavalinho anunciam, ao longe, as medonhas trovoadas que irão mesmo acontecer. O tempo das castanhas segue além pelo mês de Junho quando o rapazio, tarde fora, talha nos esguios ramos os sonoros assobios, quando os romeiros da Lapa desenham com as castanhas que guardaram os cordões dos seus rosários, quando, em Julho entrado, os pastores esgalham ramos virgens para alimento dos seus gados, quando as donas aguçam estacas de varedo para os quartéis de seus feijões, quando, em Agosto, se acolhem à sua sombra os malhadores, quando, ansiosa, a gente espera ver passar nuvens de chuva pelo céu, quando, em Setembro, a aldeia esperançada, olha a ramaria dos ouriços grados, quando, Outubro vindo, correm para os soutos, cestas na mão e os maços de britar, as mulheres dos lavradores. O tempo das castanhas é Novembro, S. Martinho, memórias de antigas festas de colheitas, de magustos, jeropiga e vinho novo. E é Dezembro quando o vento de cieiro estende pelos soutos a folhagem por lençol de adormecer, quando, Janeiro a abrir, se oferecem, secas, as castanhas, em mãos-cheias, pelos Réis, aos cantadores, quando, em Fevereiro, se faz o caldo delas pela Senhora das Candeias, quando, em Março, se desenterram, guardadas em areia, numa cova, provando, desta sorte, que o tempo das castanhas corre, intenso, fecundo e certo, os doze meses de um eterno Calendário.