Vale da Estrela… um queijo com corpo e alma

por Rua Direita | 2017.03.15 - 00:18

 

 

Vale da Estrela do empresário mangualdense Jorge Coelho é, em tudo, um sítio a conhecer.

Desde a sóbria elegância das instalações, com uma decoração feita com produtos naturais e locais, à exposição de fotografia sobre o maneio e a confecção de queijo, até às modelares e funcionais zonas de produção, muito há para ver e aprender.

Talvez com esse intuito, até o espaço da “mezzanine” foi criado para permitir a visualização pedagógica, em directo, do processo de fabricação do queijo e seus derivados.

Apostando exclusivamente em produtos DOP, o queijo da Serra é confecionado com leite cru das espécies autóctones Bordaleira ou Churra Mondegueira, alimentadas a pasto natural. Ao produto, adiciona-se ainda o cardo local e o sal. O resultado final é testado por um elenco de provadores especialistas, que só dará a sua anuição se obtiver uma nota mínima de 15 valores.

Este leite é único até e pelas suas qualidades naturais. Adiciona-se-lhe a flor do cardo e o sal para coalhar. A coalhada é depois dessorada e em queijo transformada pelas sábias mãos das queijeiras, na repetição de uma gestualidade ancestral. “Um queijo com corpo e alma” é o produto final.

A queijaria Vale da Estrela produz neste momento três distintos produtos oriundos da mesma matriz: O Queijo da Serra DOP, o Queijo Serra da Estrela Velho DOP, com cura mínima de 120 dias e o Requeijão Serra da Estrela DOP, obtido pelo dessoramento da coalhada.

Após uma visita gentilmente guiada pelo empresário Jorge Coelho, houve lugar a uma conversa convivial, para percebermos e darmos aos nossos leitores mais a saber acerca deste inovador projecto, tão baseado em saberes do passado.

 

Depois de uma carreira política nacional, porquê este regresso às origens?

Por duas razões essenciais: razões emocionais, mas também racionais. Sou de uma aldeia perto de Mangualde, Contenças, onde o meu avô tinha uma actividade próxima daquela que é hoje uma queijaria. Se fosse vivo e tivesse aquela actividade chamar-se-ia um “afinneur”, se estivéssemos em França. Ou seja, alguém que comprava o melhor queijo na Serra da Estrela para o tratar numa queijaria que tinha em baixo da casa. Todos os dias era lavado e depois ia passando gradualmente a queijo velho e curado, com o azeite e o colorau, colocando-o posteriormente nas grandes lojas de gourmet de Lisboa e do Porto. Eu tinha seis anos de idade e andava com ele pela Serra, pelas feiras… foi quando conheci a Carrapichana, Celorico da Beira, Fornos de Algodres, Penalva do Castelo, na altura Castendo, Seia, Gouveia e demais cercanias da Serra… ficou-me na cabeça este saber. O saber analisar um queijo, dar-lhe as célebres palmadas de um lado e de outro para perceber se era bom. Foi também um retomar de uma tradição familiar de uma pessoa que eu muito estimava.

 

Como surge a ideia de criar a Queijaria Vale da Estrela?

Surge pelo facto de eu ter constatado que Mangualde fazia parte da zona demarcada de queijo da Serra da Estrela e não tinha cá nenhuma empresa deste tipo. Aconteceu num almoço na Casa da Ínsua, onde estávamos a discutir este tema e eu a certa altura perguntei ao presidente da Câmara: “Em Mangualde não há uma queijaria?” e ele respondeu-me que não. Entendi que era hora de fazermos alguma coisa neste domínio. Então, comecei a trabalhar neste projecto, o que me levou dois anos a desenvolver, prazo findo o qual este empreendimento estava pronto e a produzir. Mas também por motivos racionais, pois eu sempre tive em mente que quando acabasse a minha actividade mais centrada a nível nacional, alguma coisa eu teria que aqui fazer para ajudar ao desenvolvimento da região, em particular de Mangualde.

 

Neste momento quantos colaboradores emprega?

À volta de dezasseis colaboradores.

 

Tem uma noção do volume de negócios que espera atingir?

Sim. Tenho um plano de negócios, como é óbvio. A minha vida durante muito tempo foi a de gestor. Estamos no 1º ano de actividade. Iremos ter um volume de negócios este ano à volta dos 500 mil euros, mas quando entrarmos em velocidade de cruzeiro, teremos um volume de negócios na base de um milhão de euros. São as previsões.

 

Quais as condições para obter um produto DOP?

A primeira é ter um leite de alta qualidade proveniente de ovelhas Bordaleiras ou Churras Mondegueiras. Tal exige ter pastores de alta qualidade. Temos 23 pastores neste momento a trabalhar exclusivamente connosco e estamos numa fase de discutir com mais pastores no sentido de termos em Outubro, não os 600 litros de leite que temos hoje por dia, mas passarmos a ter 1.200 litros/dia.

 

Quais os mercados destino destes produtos ou, a quem se destinam os produtos aqui fabricados?

Estamos a produzir “a sério” desde Novembro. Há praticamente três meses e meio e é hoje um grande orgulho afirmar que temos o queijo e o requeijão Vale da Estrela em mais de 200 pontos de venda, em Portugal, a ser comercializado com grande êxito. Fizemos também a primeira incursão internacional, em Espanha, numa feira promovida pelo Corte Inglês, que correu muito bem: tudo quanto lá pusemos foi vendido. Agora estamos já na fase de envio para a Arábia Saudita, para Londres, para a China, que curiosamente nos comprou uma quantidade significativa de queijo, e estamos também a negociar com o Luxemburgo. Em praticamente três meses ter 200 pontos de venda em Portugal e com estas saídas para o mercado internacional, é caso para podermos afirmar que estamos no bom caminho.

 

Esse é o reconhecimento da qualidade do produto que fabricam?

Claro. Mas não esqueça: um queijo DOP Vale da Estrela tem leite cru de ovelha Bordaleira, tem flor de cardo, sal e muita sabedoria. Não minha, mas das pessoas que aqui trabalham nesta área. O leite, a matéria-prima, é proveniente de uma escolha rigorosa e criteriosa dos pastores que connosco trabalham.

 

Na tradição alimentar dos portugueses existe o consumo do queijo?

Começa a existir mais. Com o aumento da qualidade e diversidade dos queijos começa a verificar-se uma vontade de experimentar queijo. Nesse aspecto, nós estamos também a dar o nosso contributo, pois criámos aqui condições, através da “mezzanine” que já teve a oportunidade de ver, de podermos explicar às pessoas todas que cá queiram vir, aos grupos que marquem vinda – já tivemos um de 120 pessoas – escolas, etc., que vêm perceber como é feito o queijo, quais as suas vantagens alimentares, o seu sabor… e isso é um passo importante. Estamos também a fazer sessões de degustação em muitas das unidades comerciais que existem pelo país, com colaboradores e produtos nossos. Estamos, pois, a fazer a potenciação e a comunicação desse hábito alimentar. Tenho constatado um incremento na rádio, televisão, na comunicação social, que está a transformar o queijo num produto muito importante, como o é na Holanda, na França e noutros países.

 

Qual é a maior ambição para esta unidade recém-inaugurada?

É que ela contribua efectivamente, em primeiro lugar, para a promoção de um “manjar dos deuses” que é o queijo DOP da Serra da Estrela e que o nosso “ouro”, que não existe em mais nenhum lado do mundo, resista ao sabor dos tempos. Estou certo de que estamos a dar um contributo nesse contexto. Em segundo lugar, contribuir para que um conjunto de pessoas que estavam desempregadas e cuja vida estava numa fase complexa, tenham aqui encontrado uma nova carreira para as suas vidas e tenham uma vida melhor. Em terceiro lugar, contribuir para o desenvolvimento da região e fazer que o êxito desta iniciativa propicie vários outros projectos.

 

Não vai então ficar por aqui, em termos empresariais?

Não. Se este projecto continuar a correr como até aqui, ou seja, bem, será o primeiro de vários projectos que eu quero aqui desenvolver na região de Mangualde.

 

Há uma ligação a Mangualde que lhe vem do passado. E no presente?

No presente… eu nunca deixei de aqui estar. Tive sempre a minha mãe que aqui viveu durante a sua vida inteira. Tenho uma casa em Contenças que funciona como funcionava no tempo da minha mãe, que infelizmente para mim e para as pessoas que dela gostavam, já não está entre nós, portante eu sempre aqui estive, muito, em Mangualde. Participei activamente na vida política e cívica local. Lembro-me que nestes larguíssimos anos, quer na vida governativa, quer na vida política, sempre estive presente em todos os acontecimentos importantes aqui ocorridos. E com muito gosto…

 

Que relação tem com o presidente da autarquia, o Dr. João Azevedo?

Uma relação muito próxima. Veja só: a minha mãe era a maior amiga da avó dele; a minha madrinha de baptismo era a mesma madrinha dele, minha tia direita e tia direita dele por famílias diferentes; o pai dele era um dos meus maiores amigos. Eu conheço o nosso distinto presidente da Câmara de Mangualde desde que ele nasceu. Ele é praticamente da idade da minha filha e existe um relacionamento de grande afectividade, de estima e de grande respeito. Tenho um enorme respeito por ele pois acho que tem sido um excelente presidente da Câmara. É um homem com uma capacidade de trabalho notável e com uma qualidade para mim muito importante: o seu relacionamento com os seres humanos, com as pessoas, a sua capacidade de o fazer e com gosto e não por obrigatoriedade de ser político. É genuíno. E eu penso que Mangualde detém um privilégio em ter um presidente assim, que espero continue por mais anos, pois é um forte motor de desenvolvimento desta terra. Tenho muito orgulho nisso e exprimo-o em todo o lado. Por todos os sítios por onde passo,  por este país fora, tenho orgulho em dizer que sou de Mangualde e que Mangualde tem um grande presidente da Câmara. E não perco a mínima oportunidade de trazer cá pessoas, como ainda há bem pouco tempo trouxe cá a Quadratura do Círculo, o que foi uma excelente oportunidade para as pessoas verem que há locais, no país, que estão com notas de desenvolvimento excelentes e que têm gente muito interessante, como é o caso de uma pessoa com as qualidades do dr. João Azevedo.

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