Paula quê?

por Pedro Morgado | 2017.06.16 - 08:13

O facto mais importante saído das eleições autárquicas de 2013 foi o empenho com que três “senadores” desta cidade, forjados nas altas “lides” da Assembleia da República, trocaram o “fresco” do plenário e os atapetados da Horta Seca pelos escaldantes lajedos de Viseu. Dançou-se no Rossio, abriram-se portas e janelas, subiu-se a Rua Direita ao beijinho, pintou-se a macaca. O resto já sabemos: ganhou quem estava no lado certo da barricada. A História tem destas coisas.

Agora, os tempos são outros e, para lá da notória falta de talento de quem está e de quem chega, avizinham-se novas eleições, novos protagonistas, que teimam em fazer lembrar quem partiu: Fernando Ruas, o imperecível presidente, foi-se. Eterna saudade.

Vem isto a propósito dos recentes anúncios que vemos publicados na imprensa local. Os principais partidos já escolheram os seus candidatos às eleições de outubro. Salvo uma rara exceção, a professora Filomena Pires proposta pelo PCP, tudo o resto cheira a carro novo. Se fosse uma caderneta de cromos, faria as delícias da miudagem. Não pela ausência de qualificações (não me refiro às necessárias para o cargo), mas pelo arrojo e pelo ato de fé que é, nos dias de hoje, acreditar que a força nacional de um partido pode fazer esquecer a falta de intervenção cívica, ou de existência conforme preferir, dos candidatos que querem o leme da cidade.

Claro está que desta lista excluímos, por razões óbvias, António Almeida Henriques, o esforçado autarca desta cidade-região. Pelo seu trabalho ao longo destes quatro anos, pela sua dedicação e pelo seu passado abnegado merece naturalmente um olhar mais aprofundado sobre o seu legado num próximo artigo. Quanto a ele apenas se pode adiantar que, face às circunstâncias, muito se assemelha a um cavalheiro inglês, esganado, num qualquer restaurante da Baixa. Apesar de deslocado, vai comê-los de cebolada.

 

OS CANDIDATOS (A VEREADOR)

Em Viseu, longe vão os tempos em que as escolhas das estruturas partidárias causavam mal-estar no seio dos partidos. Por aqui, há muito que se deixou de acreditar no candidato certo. Aquele tal, não existe.  Hoje, “aguentar” é mesmo o verbo certo, apesar de nada nos ter preparado para o que nos calhou em sorte.

Dizem-me os búzios que, do lado do Partido Socialista (PS), foi desta que Lúcia Silva chegou ao topo da lista. Nada que me surpreenda. A sorte “boceja-a” todos os dias. Quantos é que seriam capazes de partir em sexto lugar na lista de deputados à Assembleia da República e hoje ocupar uma das três cadeiras reservadas ao distrito? A deputada Lúcia conseguiu e o meu amigo? Portanto, quanto ao mérito ou à capacidade de outros estamos falados. Agora, o presidente em funções que se cuide pois, mesmo com a vitória no bolso, as orelhas vão aquecer “un poquito”.

Já no Bloco de Esquerda (BE) de Viseu a “ruptura fracturante” aposta na continuidade. A “energia positiva” da Né (Manuela Antunes) deve continuar a “alumiar” a Assembleia Municipal enquanto Fernando Figueiredo, um independente, é desta vez o “pensador” de serviço. Espera-os três meses de carne assada e cerveja ao copo na Rua das Ameias onde, se as cornetas trombeteiras não falharem, serão retransmitidos em horário nobre os melhores discursos da Catarina, do Carlos Vieira e do Luís Mouga Lopes. Viseu, esta gente de vistas curtas, nunca estará à altura de uma Esquerda caviar que, por cá, se apropriou de uma das melhores ideias que a democracia portuguesa foi capaz de gerar (concorde-se ou não com os seus pressupostos ou práticas).

Mas é no CDS de Hélder Amaral que a escolha do candidato para a presidência da autarquia ganha contornos de anedota. Se já se sabia que havia dúvidas, muitas, quando em janeiro Carlos Cunha, presidente da concelhia do CDS Viseu, abriu a porta a um eventual apoio do partido ao social-democrata Américo Nunes, ideia logo afastada pelo próprio, esperava-se agora uma qualquer vaga de fundo, um candidato que pudesse ser ao menos isso: um “candidato”. Pois bem, não aconteceu nada disso.

Num ziguezague a que nem o nosso Ronaldo é atreito, Hélder Amaral, o deputado centrista que mais percebe o distrito, fintou a estrutura concelhia a quem prometeu um “nome” e, surpresa, cumpriu a promessa. O CDS vai a eleições com a Paula não sei quê que, em entrevista à Agência Lusa revelou que, vai fazer não sabe bem o quê. Mas, afinal qual é o drama? Principalmente quando falamos de outra candidata independente que vem fazer um “ato de cidadania”.  Viseu tem direito a sonhar. Viseu tem direito a ter um presidente independente, uma Paula “Moreira” à imagem do Porto. Sempre soa melhor do que trocar o nome do meio por “CDS”. Hoje ser independente é um selo de qualidade.  A ver vamos…

O conforto com esta escolha parece não vir de lado nenhum. Enquanto na rua o tema desperta paixões e as mais variadas teses que versam muito sobre “oportunismo político” e o “passar a perna a quem trabalha”, há junto dos militantes do partido uma regra: o silêncio e um encolher de ombros. Afinal, qual era a “pressa”?

Paula não sei quê é mulher, mãe, economista, “diretora financeira, administrativa e de recursos humanos da Cooperativa Agropecuária dos Agricultores de Mangualde” e, quase de certeza, cristã desde pequenina. Se, quanto ao resto, nada deva ser referido, há uma interrogação que merece ser feita a partir desta pequena apresentação. Mangualde não é mesmo aqui ao lado? Como é que este concelho, como é que o CDS de Mangualde não vislumbrou o mérito desta candidata? Aqui, arrisca-se a nunca “dinamizar” os seus “projetos” quando, a pouco mais de 100 dias das eleições, ainda está a pensar como adaptar um programa que não existe às “linhas orientadoras deles (CDS)”.

Este não será decerto o melhor momento para refletir sobre o modo como os nossos partidos fazem as suas escolhas. As decisões já estão tomadas e, no dia a seguir às eleições ninguém se vai lembrar. Contudo, é preciso tornar compreensível o incompreensível: Paula não sei quê é a candidata de um partido à presidência da Câmara Municipal de Viseu. Nunca lá chegará, é certo, mas, até agora, nada fez de relevante na vida ou na cidade para que o seu nome fosse sequer considerado. Ponto.

Se isto continuar, um dia destes qualquer um de nós (desde que seja independente) pode ver o seu nome apontado como candidato à Câmara de Aveiro só porque àquela hora estava a banhos na Praia da Barra. A política está a dar as últimas. Tenham juízo.

 

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA?

Em 2013, o Partido Social Democrata (PSD) com Almeida Henriques teve um dos piores resultados em Viseu. Apenas 46,37% dos votos. Dois lugares de vereador voaram direitinhos para a oposição: um para o PS e outro para o CDS. Caso tivesse perdido mais um a história deste mandato autárquico teria sido possivelmente outra com claros benefícios para a qualidade de vida dos viseenses que, nos últimos anos, tem andado pelas ruas da amargura. O quotidiano de ruas cortadas, trânsito condicionado, lixo, festinhas e “festetas” poderia ter sido evitado.  Este diálogo é, em si, um clássico.

Aquilo que ninguém parece perceber é que o que há quatro anos fez a diferença não foram apenas os 11 mil votos perdidos por Almeida Henriques. A par destes, outros quatro mil e trezentos votaram em branco ou anularam o seu boletim – três vezes mais do que na eleição de 2005. Foi daqui que saíram as três centenas de votos que valeram ao CDS a eleição do seu vereador.

Os partidos tinham em 2017 uma janela de oportunidade única para transformar o elenco governativo desta cidade num outro “mais amigo das pessoas”. Desbarataram-na completamente.

Clara Ferreira Alves disse-o um dia. As circunstâncias obrigam-me a seguir o seu exemplo.

Para que conste, “eu não ponho flores neste cemitério”.

Nasceu na Covilhã. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Educação de Viseu, ocupa parte do seu tempo nas áreas ligadas às novas TIC's.

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