” Folclore e foguetório” – “bastava a Feira de S. Mateus para encher o ego da governação”, denuncia Filomena Pires

por Rua Direita | 2017.09.16 - 12:20

Informação do Presidente da CMV na última Assembleia Municipal de Viseu

Num exercício coerente de louvaminhas, para ficar escrito e tapar o sol com a peneira, diz a informação do Presidente que a gestão municipal atingiu neste mandato “um modelo cultural, de diálogo e de participação democrática”, ilustrando o dito com o exemplo do “respeito pelo estatuto da oposição” e as “aprovações por unanimidade acima dos 97% no executivo”. Não fossem os chumbos do Tribunal de Contas a demonstrar o contrário, bem como a ausência de uma única reunião no mandato para ouvir a oposição, como o respectivo “Estatuto” obriga, e a cândida afirmação deixar-nos-ia embevecidos.

Temos de aceitar como natural que tudo sejam boas notícias e êxitos de governação, neste último relatório da actividade municipal. É assim com a redução do desemprego em 30% e a criação de 1.400 postos de trabalho por força dos apoios municipais. É estranha esta precisão nos números de postos de trabalho criados, quando comparada com a tibieza e subjectividade  da resposta a muitos dos requerimentos que sobre a matéria tenho dirigido à Câmara.

Sobre as questões da mobilidade rodoviária e ferroviária diz o Senhor Presidente que devia existir “uma voz colectiva”. Para reclamar a construção de auto-estradas com portagens? Ou para diluir no geral as responsabilidades particulares que, enquanto governante e apoiante do anterior governo, teve no adiamento das justas reclamações da região nessa matéria?

Dizem os manuais de boas práticas citados na presente informação que “Planear é indispensável à boa ação, mas não dispensa fazer…” Nenhuma voz crítica do imobilismo da gestão municipal diria melhor.

Foram necessários 4 anos para à última hora o município vir a “Gostar do meu bairro”. Foi necessária a proximidade de eleições, para lançar primeiras pedras e obras de saneamento básico e abastecimento público de água em várias freguesias. Nunca, como agora, as freguesias e localidades viram tanto alcatrão, mesmo que colocado à pressa para enganar incautos, sem valetas nem aquedutos, comprovando carências que afinal os propalados 38 milhões (ou serão 50 milhões senhor Presidente?) investidos nas freguesias não resolveram.

Fala a informação em mais 5 mil habitações ligadas com água e saneamento neste mandato. É caso para dizer como numa conhecida lenga-lenga popular, que quanto mais se ligações se fazem mais ligações há para fazer. Que o diga a população de Calde e de Travanca de Bodiosa onde me foram mostradas dezenas de habitações sem ligação ao colector de saneamento, nomeadamente instituições sociais de apoio à terceira idade, com a agravante de muitos desses munícipes estarem a pagar indevidamente a taxa de saneamento.

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Gastou a Câmara 2 milhões de euros em refeições e transportes escolares e mais uns quantos em obras nos jardins de infância e escolas do primeiro ciclo. Lido assim, parece que não é responsabilidade directa do município fazê-lo. Estranho é que me continuem a chegar relatos de ausência de obras inadiáveis que contribuiriam para a melhoria substancial do bem estar e qualidade de vida das crianças nomeadamente em escolas na Freguesia do Campo e no Centro Escolar Rolando de Oliveira.

Apoio ao desporto, milhares de jovens a praticar diferentes modalidades, percentagens de aumentos e números recordes, tudo obra deste mandato municipal. Vamos ouvir as colectividades e relatam-nos não haver campos suficientes para treinar e jogar, não existir uma Piscina Olímpica Municipal, para uso dos nadadores de competição, nem se fala na construção de um Centro Desportivo de Alto Rendimento, mesmo um simples desfibrilhador não existe no Fontelo.

Claro. A prioridade são mesmo os eventos, as Arenas, os concertos mediáticos, como prova a Feira de S. Mateus. Atrever-me-ia até a dizer que, se não tivesse havido mais nenhum acontecimento marcante no mandato, bastava a Feira de S. Mateus para encher o ego da governação. Uma iniciativa ímpar, que prova a vocação messiânica do Executivo Municipal para organizar eventos marcantes. Claro que há umas queixas dos comerciantes locais quanto ao modelo de licitação em carta fechada dos espaços da Feira, razão pela qual a maioria dos vendedores é de fora do concelho. Mas isso não leva os organizadores a deixar de a considerar a nossa “Feira Franca”. Franca, franca, convenhamos, só se for mesmo para os que recebem uma pulseira VIP da “Viseu Marca” e podem comer e beber sem restrições no seu espaço. O que é irrefutável é que a nossa Feira de S. Mateus, “impacta” mais de metade da população nacional. Ai não sabiam? Imaginem então o “impactamento” na promoção do comércio local, se a este fosse destinado o mesmo investimento que é feito na divulgação do certame. Os comerciantes já ficariam satisfeitos, se a Câmara destinasse uma parte ínfima do seu orçamento à erradicação do persistente problema do cheiro pestilento que recebe os visitantes da Rua Direita.

Termina a informação municipal com o anúncio para 2018 do Europeade, festival europeu de folclore. Chegam tarde. A menos que venham frequentar acções intensivas na área do “folclore e foguetório”, ministradas por promissores futuros vereadores e seus adjuntos.

Projecto na área da comunicação social digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana dedicado ao distrito de Viseu

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