É o Pavio(a) curto

por Pedro Morgado | 2016.04.04 - 20:15

As certezas são poucas, mas, curiosamente, as dúvidas também. Em pouco mais de 48 horas o presidente da câmara de Viseu, António Almeida Henriques, gelou a cidade e tomou de assalto as praias de Espinho onde, numa verdadeira “guerra-relâmpago” (Blitzkrieg), anunciou a recandidatura. Há quem diga a destempo e a desmodo.

Se, por um lado, Almeida tem uma ambição da qual nunca fez segredo: ficar à frente da autarquia viseense durante os três mandatos que a lei permite, caso nada melhor se perfile no horizonte, certo é que a sua intervenção no 36.º congresso do PSD provocou erupções cutâneas em muita boa gente que por ali andava.

E, foi fácil. Dispensando as palmas e os gritos, subiu ao palanque destinado aos discursos de circunstância, hesitou um segundo e dirigiu-se ao público. Numa das cadeiras à sua esquerda, Fernando Ruas, o histórico presidente de Viseu, o seu “estimado amigo”, inclinou-se à espera de o ouvir.  E, a sala ficou em suspenso. O presidente candidato é mesmo assim. Imprevisível e dotado de dotes humorísticos de traço fino. Sem que ninguém lhe pedisse nada decidiu responder ao desafio lançado por José Pedro Aguiar-Branco, que exortou os melhores quadros do partido a mostrarem-se disponíveis para a “batalha” das autárquicas, apostando tudo:

“E queria também dizer ao José Pedro Aguiar-Branco, que veio aqui lançar alguns desafios, que sou candidato à Câmara de Viseu nas próximas eleições. Mas, mais do que isso: com uma garantia. É que mesmo que não ganhe com maioria absoluta, serei presidente da câmara”, assegurou.

Depois, depois o mesmo de sempre. Pegou nos bonés velhos caídos no chão, o combate que é necessário travar enquanto oposição, as opções de Costa e o bom desempenho do governo PSD/CDS que resgatou o país da quase bancarrota e juntou-lhes água: a desertificação do interior e a natalidade, temas tirados a ferros da iniciativa do Correio da Manhã “Viva a Vida”, e, a sua imagem de marca: a preocupação com o tecido económico. Tudo coisas nunca antes ouvidas.

De duas, uma: ou Almeida embalou com tanto holofote, câmara e/ou microfone para abocanhar ou, a “coisa” era para ser mesmo assim. O desafio a todos aqueles que acompanham a vida política viseense é, pelos vistos, tentar traduzir para português as “braçadas” deste campeão.

Entre Almeida e Ruas as “peças” que os podem reconduzir ao poder são as mesmas, embora não pareça. Neste xadrez estratégico, Fernando Ruas está claramente em vantagem. Basta que para tal tenha vontade. Rejeitando qualquer tipo de cedências que o possam obrigar a uma clarificação, Fernando Ruas sempre avisou que será “candidato à câmara quando quiser”. O galo foi morto, os búzios foram lançados: nisto acreditamos.

É verdade que ninguém antecipou uma recandidatura a esta distância das próximas eleições autárquicas. Contudo, também não é menos verdade que a vontade de Almeida Henriques, ao tentar deixar “fora de jogo” o “fantasma” de Ruas, expressa nesta tentativa de condicionar o partido, faz hoje parte do seu ADN. O vento necessário ao fortalecimento da candidatura de Almeida Henriques pode deixar de soprar a qualquer momento quando, a única pessoa com força inequívoca no aparelho do partido é Fernando Ruas.

 

MANUAL DE ÉTICA

 

Vários atos marcam já esta disputa política. Os dias e os anos que se seguiram às eleições de 29 de setembro de 2013 não foram bonitos de ver. Os remoques ao trabalho do anterior executivo e as consecutivas distinções com o “Viriato de Ouro” nunca auguraram nada de bom.

Vale a pena ter isto em conta quando olhamos para a atualidade. Passados quase três anos vive-se um clima de guerra fria onde o “estimado amigo” e o “companheiro” está bem é lá longe, em Bruxelas.

Reparem: até à passada sexta-feira, tudo se mantinha assim, amorfo e indefinido. Contudo, a chamada de capa feita pelo Jornal do Centro à entrevista de Almeida Henriques com o título “Fizemos mais em dois anos que nos últimos quarenta” pode ter feito estalar o verniz.

De repente, tudo parece ter mudado. Em torno de uma entrevista inócua, desinteressante e vazia de conteúdo, que versava sobre a instalação do novo Centro de Competências da IBM em Viseu, levantaram-se os céus e a terra.

Da acusação de “adulteração, por descontextualização e omissão relevante de palavras” ao direito de resposta foi um tiro. O que ali se devia ler afinal era “já fizemos mais pela economia do concelho do que foi feito nos últimos 40 anos”. Assim, defende Almeida Henriques, tal afirmação deixa de ser “um ato de sobranceria, como um desrespeito e uma desvalorização injusta do legado dos meus antecessores à frente da Câmara Municipal”.

Quem tem razão? Parte da resposta está na extensão do nosso entendimento sobre o que foi visado. Se, por um lado, a ação do jornal, ao tornar apelativo aquilo que o não era é por si só censurável, não mesmo importante é o conteúdo desta afirmação.

Se, para Almeida Henriques o enfoque que o seu executivo tem dado aos “temas da economia e da atração do investimento” pode ombrear com a obra e com o enorme desenvolvimento económico desde abril de 75, no qual se inclui todo o legado de Fernando Ruas que ele avista da janela do seu gabinete, esta é a sua opinião. Lamentavelmente não o podemos acompanhar.

É o Pavia curto e barcos rabelos e barricas do Dão nele desceriam rumo a um qualquer casamento cigano que durasse trinta dias.

 

Foto: Direitos Reservados (DR)

Nasceu na Covilhã. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Educação de Viseu, ocupa parte do seu tempo nas áreas ligadas às novas TIC’s.

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