“Contra o Colégio, armavam as doceiras; bolos, fálgaros, rebuçados…” – A Feira Aquiliniana da Lapa

por Rua Direita | 2018.06.04 - 15:54

 

 

“Diante da Casa dos Jesuítas, tornada em Colégio, as tendeiras nas barracas de lona, não tinham mãos a medir. Vendia-se ali de tudo, berimbaus, palhaços que alçam as pernas por riba dos ombros, guisos ásperos para adormecer meninos, os bons canivetes de marca de anzol, faixas de oito voltas e linhas para quem se quiser coser. Diante de tanta lindeza, as moças arrelampavam. (…) Faziam ali um negociarrão, e só lhes levava a melhor – se levava – o João das Três, que se botara de Lamego, com loiças finas e facas de pé de prata, a dar de comer aos figuros. Lá rescendia da chafarica o relento da boa vitela assada e, quando alguém entrava ou saía, pelas bambinelas arredadas, abispavam-se toalhas de pano familio, talheres postos com guardanapos e os criados de avental branco, gira que gira numa dobadoira branca.

Ali não faltava nada, só apetite ou dinheiro.

Mais arriba, a entestar com o Santuário, alinhavam as chafariqueiras; tomavam-se ali toda a casta de bebidas, desde o café à limonada. Pelo meio, rondavam os moinas, que as melhores frangaínhas da terra serviam naquelas barracas. O palminho de rosto, a poeira, o calor da bursunda, ou o frio da noite ajudavam à veniaga e era chícara cheia, chícara vazia. A Lapa vivia daquilo e dos padeiros…” *

 

Este passado fim-de-semana decorreu a 10ª edição da Feira Aquiliniana da Lapa, numa organização conjunta da CMS, JF do Carregal, ESPROSER, etc.

O tempo apreceituou-se e a “romaria”/feira/festa decorreu com animação e muito povo. Sempre foi assim, a não ser nos decaídos anos do Santuário. Felizmente que este, apoiado na difusão mais pelas instituições civis do que pela diocese de Lamego a que pertence, daí tira seu benefício, num labor conjunto e esforçado para um recriar de tradição secular na qual, desde sempre, o sagrado conviveu paredes meias com o profano, em toda a harmonia, no melhor entendimento e no cabal respeito pela Igreja e pelo Povo, que aqui, nas Festas anuais de 15 de Agosto, acorria de todo o distrito para louvar a Senhora da Lapa e o Menino, bem como para o folguedo já retratado nas cantigas de romaria medievais, subgénero das cantigas de Amigo, como neste excerto:

Poys nossas madres vam a Sam Simon
de Val de Prados candeas queymar,

nós, as meninhas, punhemos d’andar
com nossas madres, e elas enton
queymen candeas por nós e por ssy,
e nós, meninhas, baylaremos hy…

Assim escrevia Pero Vivaiez, há quase um milénio.

E nunca daí veio mal ao mundo, no entendimento que há um tempo para tudo, até para orar e para bailar.

A Feira Aquiliniana da Lapa, homenageia o escritor Aquilino Ribeiro, que ali estudou de 1895 a 1900, período que tão bem descreve no seu romance autobiográfico “Uma Luz ao Longe” (1948).

Fazendo jus a uma já tradição de uma década, acorreu o povo e acorreram os fiéis da Santa. Houve recolhimento e oração, divertimento e reinação. Os comerciantes fizeram bom negócio, os peregrinos deram-se por satisfeitos e os turistas reconheceram a mais-valia do evento.

Actuaram Grupos de Concertinas, houve recriação dos desacatos e das lutas de paus e varapaus, dramatização de excertos de obras de Aquilino pelos alunos da Esproser, ranchos folclóricos, música tradicional, malabaristas, comeres e beberes, jogos tradicionais, teatro e, claro está, o tempo da missa no Santuário. Todos ficaram a ganhar. Pelos menos, a quantos ouvimos, o elogio ao evento era afiançado.

Louvam-se iniciativas deste teor que não só são um estímulo maior para o turismo religioso, como para o literário, podendo-se, de uma cajadada, matar dois belos coelhos.

 

 

 

*Seguimos a 1ª edição de Terras do Demo, de 1919

Projecto na área da comunicação social digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana dedicado ao distrito de Viseu

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