Brincar aos camiões-cisterna

por Pedro Morgado | 2017.11.12 - 17:23

“A maior operação alguma vez montada em Portugal em virtude da seca” segundo as palavras do presidente da Câmara Municipal de Viseu, António Almeida Henriques, é, na minha modesta opinião, o ato mais inconsequente que já foi praticado por um autarca neste país, não apenas pela ausência de resultados práticos mas sobretudo pelo enorme logro que constitui.

Não concorda?  De acordo com o relato feito esta sexta-feira ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, junto à albufeira da Barragem de Fagilde, entre o final do mês de outubro e a data de hoje foram transportados diariamente pelos camiões-cisterna cerca de 500 metros cúbicos de água para Mangualde e 3.300 metros cúbicos para Viseu. Tal é uma impossibilidade. Se tivermos em linha de conta os números avançados para esta operação – 112 cargas de água por dia com recurso a 27 camiões – e os dados técnicos conhecidos – cada camião transporta no máximo 26 mil litros por viagem – estamos a falar de quase mil metros cúbicos/dia (um milhão de litros) a menos. Talvez sejam aqueles que, em bom português, “a burra mamou”.

Mesmo que condescendentemente possamos admitir tal número como real – o que não acontece – qual seria o resultado prático desta operação para telejornal ver? Nos últimos doze dias António Almeida Henriques gastou 200 mil euros (quase um quarto de milhão) em água, nos tais 3.800 metros cúbicos dia, que bebemos apenas este fim-de-semana. É obra.

É também incrível que nas dezenas de entrevistas, recortes e capas na imprensa – tudo coisas para as quais o nosso autarca-holofote trabalha afincadamente cada dia, ninguém lhe tenha feito a pergunta que importa: em que medida é que a operação “Viseu Hidrata” – por aqui as coisitas costumam ter nomes pomposos e, na sua ausência, tive que inventar um – responde às necessidades efetivas de água?

João Azevedo, presidentes da Câmara de Mangualde, na presença de Marcelo Rebelo de Sousa, respondeu a esta questão. Mais uma vez ninguém parece ter reparado. “Para restabelecer os níveis, teria de haver 500 camiões por dia a deitar água dentro da bacia da Barragem de Fagilde”. Aqui, vamos mais longe. Tal não chega para “restabelecer os níveis”, serve apenas para dar resposta ao consumo diário.

Confuso? Em todas as declarações de Almeida Henriques estiveram sempre em falta duas variáveis importantes para se aferir da qualidade da medida. Uma primeira que assegurasse às populações que o abastecimento de água está garantido e uma segunda que contivesse dados sobre as necessidades diárias, sem os quais é impossível fazer as contas.

Se, quanto à primeira nada podemos fazer, vamos contar-lhe um pequeno segredo: sabemos a resposta à segunda. Escondido no documento Relatório e Contas de 2016 dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Viseu (SMASV) existe um quadro que refere o volume de água faturada entre 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2016. Nele podemos constatar que, no mês de novembro do ano passado, foram fornecidos e faturados 404.702 metros cúbicos, o que perfaz um consumo diário médio estimado de 13.490 metros cúbicos. Como diria Guterres, é só “fazer as contas”. A operação “camião”, com todos os custos associados, está a transportar diariamente menos de um quarto da água necessária.

António Almeida Henriques é hoje, decerto, a pessoa neste país que mais anseia pela chuva. Depois do bom resultado alcançado, mediaticamente falando, o fim da água nas torneiras pode transformar este sonho num pesadelo.

Já todos conhecemos os dotes criativos deste executivo quando a receita mistura mediatismo com contas certas. A fórmula combina sempre a palavra “milhões”, um benefício dúbio para a populaça e uma mão estendida ao Governo. Este foi mais um caso. Do “meio milhão de euros”, que “iremos gastar durante este mês”, passou-se rapidamente, na presença do Chefe de Estado, para os 20 mil euros/dia – 600 mil euros/mês (mais do que meio milhão para os mais desatentos) – dos quais apenas temos “cerca de 250 mil euros para usar, mas não temos capacidade para aguentar mais do que isto”. Palavras para quê? Almeida, vê lá se te decides. A “fila de dois quilómetros e meio de camiões a circular por dia” tem os seus custos. Como diz o provérbio popular, “quem não pode, arreia”.

Nasceu na Covilhã. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Educação de Viseu, ocupa parte do seu tempo nas áreas ligadas às novas TIC’s.

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