Autarcas do século XXI – Vítor Rebelo e a Junta do Carregal, Tabosa e Aldeia de Sº Estevão

por Rua Direita | 2017.11.06 - 14:31

 

 

 

Por estes três povos, numa área geográfica de 20 quilómetros quadrados e mais de 600 habitantes, perpassam muitas das mais gloriosas páginas de Aquilino Ribeiro, nascido no Carregal, a 13 de Setembro de 1885. Em “Cinco Réis de Gente” lemos os seus primeiros 10 anos de existência, No “Valeroso Milagre”, o épico conto decorrido no Convento de Tabosa e Igreja da Nª Sª da Assunção. Na “trilogia rural”, “Aldeia, Terra, Gente e Bichos”, “Geografia Sentimental” e “O Homem da Nave”, voltamos a pisar, recorrentemente todos os cantos deste território.

Por aqui e algumas freguesias adjacentes, se encontra também um punhado de produtos que são símbolos gastronómicos do Concelho e fontes de riqueza de muitos munícipes, como os conventuais fálgaros, cavacas e queijadas de castanha e os soutos de castanheiros, geradores de mil toneladas de castanha/ano.

Num périplo Carregal, Tabosa, Sernancelhe e Freixinho, fomos ver, aprender e apreciar o labor da Dª Olívia Augusto e da Dª Lúcia Correia, na confecção dos fálgaros, da Dª Dina Santos, nas queijadas de castanha e da Dª Maria Alcina Dias, nas cavacas do Freixinho.

 

 

Antes da “incursão” ouvimos Vítor Rebelo, 38 anos, licenciado em Informática de Gestão e presidente da Junta de Freguesia do Carregal, que iniciou agora o seu segundo mandato pelo PSD.

 

RD: Quais as prioridades deste mandato 2017/2021?

VR: A prioridade maior é a proximidade à população. O estar junto com ela. Estamos no interior. Há muito idoso carenciado de todo o apoio. Nesse sentido, estamos quotidianamente a seu lado, por exemplo, preenchendo o IRS; fazendo registo de facturas e de bens; a marcação de consultas online; somos o elo de ligação entre o município e os idosos na questão dos medicamentos… Também comos mais novos, promovemos ATL’s nas férias, onde, por exemplo, 30 crianças se integram, durante um mês, com tudo pago – refeições, viagens a parques lúdicos e de lazer, com duas monitoras e auxiliar de cozinha.

Também o ambiente e a floresta é para nós uma prioridade. Vamos dar continuidade a uma candidatura para a limpeza florestal de 40 há. Temos mais candidaturas submetidas e aguardamos a sua aprovação. Se não forem aprovadas, iremos adiante, fazendo faixas de contenção e limpeza de caminho rurais.

Não esquecemos as obras de valorização do património existente como também lutamos pela promoção dos fálgaros e de Aquilino. E temos retorno…

RD: O que são os fálgaros?

VR: São um bolo conventual, que não é como em geral, doce, não leva açúcar e é feito com ovos caseiros, queijo fresco de vaca, farinha de trigo e sal. É importante referir que são confecionados no vetusto forno comunal da Tabosa.

Partem-se os ovos – por cada fornada de 40 fálgaros, 100 ovos, esmaga-se o queijo, cujo tamanho ou quantidade dita o número de ovos. Um queijo grande pede mais ovos, dando, em média, um queijo de 1,5 kg para 40 fálgaros.

Juntam-se os ovos com a farinha. Amassa-se manualmente. Não é fintada a massa que é depois tendida, colocadas nas formas (tampas de latas de azeitonas) para ir ao forno. O forno de lenha é comunal e muito antigo. Além dos ingredientes e do amassar, o mais importante é o forno e a sua temperatura. A temperatura é medida com um punhado de farinha que se atira para dentro do forno. Se a farinha “esturricar” quer dizer que o forno está demasiado quente. Deve, pois, deixar-se arrefecer ou provocar o arrefecimento com uma saca de serapilheira embebida em água e no extremo de uma pá. Quando a farinha não queimar, está à temperatura ideal.

Após dar entrado no forno, a cozedura demora uma hora, uma hora e dez. e após uma manhã de trabalho… estão prontos a comer. E que bons eles são!

RD: A quanto sai cada fálgaro, no mercado?

VR: Nas feiras e certames são vendidos a 3,5€.

RD: E quanto a Aquilino Ribeiro?

VR: Estamos a terminar uma Praça situada no espaço do antigo tanque público, onde as pessoas lavavam a roupa, que foi intervencionada deraíz por forma a tornaraquele espaço mais digno, aprazível e a porta de entrada na Freguesia do Carregal. Será a Praça Aquilino Ribeiro que estará pronta antes do final deste ano, prevendo-se uma inauguração com um evento cultural e de cariz literário, alusivo ao Mestre e genial escritor, de quem tanto nos orgulhamos.

Além disso, a Junta de Freguesia está aberta e disponível para acolher e incentivar eventos culturais nesta temática e neste âmbito e até para dar a adequada resposta, em termos de oferta, à crescente procura turística.

Escoada uma hora, finda a entrevista, tínhamos encontro aprazado com o Paulo Pinto, da comunicação da CMS e uma dupla, jornalista e fotógrafo de “O Público” – revista “Fugas” – o Luís e o Sérgio.

Estava dado o mote e o forno à espera, num dia já um pouco ríspido na temperatura e com uma abençoada chuvinha a cair.

No forno esperavam-nos as artesãs acima referidas, a Dª Olívia, a Dª Lúcia e o Sr. Luís que ia tratando da temperatura e, ao mesmo tempo, aproveitava para dar “têmpera” às varas de castanho que e depois de “enrijadas” iriam dar poderosos cabos de enxada.

Seguiram-se as horas. O muito trabalho manualmente feito não escasseou. Com muita arte e mais saber, entremeado de boa disposição, chegou a hora da prova, saindo o fálgaro a ressumbrar do forno que, e ali, se acompanhou de queijo fresco e de um “Aquilinus” rosé de 3 assobios.

De seguida, num rufo, descemos a Sernancelhe, ao Restaurante Flora, onde assistimos à “feitura” das queijadas de Castanha pela mãos sábias da Dª Dina Santos. Diz-nos ela que as castanhas vêm dos soutos de Sernancelhe, são descascadas e postas a cozer em lume lento. Ferve-se a água com limão, açúcar, pau de canela e vinho do Porto. A castanha torna-se um puré ao qual se juntam as gemas de ovos e as claras batidas em castelo… e, depois, é comê-las e chorar por mais.

Daqui fomos ao Freixinho, a casa de Dª Maria Alcina Dias que, com seu marido, são os derradeiros perpetuadores das célebres cavacas originárias do Convento das Recolectas da Nª Sª do Carmo, naquela localidade. Com o atraso entretanto gerado, fomos a tempo de as ver cozidas e no acto de “pincelar” com o açúcar que lhe dá a camada final linda e gostosa. A acompanhar com uma jeropiga de Malvasia…

Ainda se visitou o Convento da Tabosa, derradeiro convento cisterciense feminino, hoje propriedade privada de Luís Mergulhão, onde, conjuntamente com a muito bem restaurada igreja pública da Nª Sª da Assunção, decorreu a diegese de o “Valeroso Milagre”, conto de Aquilino Ribeiro, saído no revista ABC em 1921 e no ano seguinte com o “Estrada de Santiago”.

Estava adiantada a hora do repasto, centrado também na oferta local, e desta feita no Convento Rural do Freixinho onde os acepipes servidos e finamente confecionados, dispensando encómios, ficam nos “retratos”.

Em suma, Sernancelhe, Carregal, Taboa e Freixinho… uma parte do Concelho tão pródigo em oferta gastronómica conventual, produtos endógenos de altíssima qualidade, da martaínha ao fumeiro e… incontornavelmente, terra natal de um dos maiores escritores portugueses de sempre, Aquilino Gomes Ribeiro, que como ninguém, descreve estas terra e suas gentes. A ler, obrigatoriamente.

E esteja atento, nos próximos dias 11 ou 18 sairá no “Público” a “Fugas” que trará o trabalho dos jornalistas referidos.

 

 

 

 

Projecto na área da comunicação social digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana dedicado ao distrito de Viseu

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