À Conversa com Nuno Gonçalves, presidente da Câmara de Torre de Moncorvo

por Rua Direita | 2018.08.01 - 14:50

No decurso da assinatura do evento cultural promovido pela CIM Douro, “Oito Mãos – Monumentos Com Música Dentro 2018”, estivemos em Torre de Moncorvo.

Aproveitámos o ensejo para trocar algumas palavras com o presidente do município, Nuno Gonçalves, advogado, vice-presidente daquela comunidade intermunicipal, no seu segundo mandato pelo PSD.

 

RD: O seu Concelho, carências e projectos?

NG: Em linhas gerais, a grande carência é de cariz populacional, a demografia e a tentativa de fixar jovens. Não temos esse problema até aos 18 anos, mas temos esse problema a partir dos 24 anos… decorrente das universidades e do mundo do trabalho. O regresso daqueles que foram tirar uma licenciatura é complicado e isto também se alia à escassez da criação de emprego. Mas também a toda esta política que vários governos, sucessiva e reiteradamente foram fazendo, que foi olharem para o país tendo como único factor a população, fechando serviços nos territórios com menos população, criando aquilo que vulgarmente o povo dizia de “pescadinha de rabo na boca”. O fecho dos tribunais, das finanças, a retirada da PSP, o encerramento consecutivo de linhas ferroviárias… tudo isto fez com que as pessoas fossem abandonando os seus concelhos. E os serviços que são retirados, não lesam só pelos próprios serviços em si, mas também por todo o factor dinâmico e económico que criam nestas populações. Portanto, é esta política desajustada, esta política que criou um navio a adornar para o litoral, que está a fazer com que o interior passe por estas dificuldades.

RD: Hoje fala-se muito em descentralização, contudo esta conversa parece ser um diálogo trivial… Fala-se muito, mas de concreto, faz-se muito pouco…

NG: Eu diria mais, diria que estamos perante um diálogo de surdos. Quando não se quer decidir, não se optam por três ou quatro medidas estruturais, apontam-se 50, 60, 70, 100 medidas. Ora, isso faz com que nenhuma se realize, na verdade e assim vamos “empurrando com a barriga para a frente” os problemas. Se a mim me derem a descentralização ou pensarem na descentralização para Torre de Moncorvo como forma de manter alguns edifícios ou alguns monumentos que o Estado e o Poder Central tratam mal e não conseguem reestruturar, no fundo, naquilo que era a sua natureza, a de prestarem um bom serviço público… eu para isso não a quero. A Câmara Municipal não terá que ter a tutela, pelo menos enquanto eu estiver na presidência da Câmara de Moncorvo, a tutela de edifícios pelos quais o Estado não zela nem deixa zelar, pensando que isto é descentralizar. Ora não é. Isto é a retirar “a água do capote” e fazer uma má gestão consecutivas de anos e anos.

RD: Qual é então e na sua perspectiva, o receio do Poder Central?

NG: O receio do Poder Central… eu dou-lhe um exemplo sem nomear institutos nem comissões. Porque é que há-de existir no Poder Central um instituto onde um arquitecto é mais competente que o arquitecto da Câmara? Ou outro instituto onde o jurista há-de ser mais competente que o jurista da Câmara? Ninguém quer mais pela minha terra do que eu. Eles nem conhecem a realidade da forma como a conhecem e vivem quotidianamente os trabalhadores da Câmara Municipal, os seus funcionários, os residentes em Torre de Moncorvo. Há muitos institutos que eu acredito que poderiam acabar e deixar de terem a importância que têm, que afinal é a importância de uma assinatura para eles próprios se sentirem importantes. E este é o grande problema do centralismo em Portugal.

RD: Macro expectativas para o mandato?

NG: As macro expectativas… defintivamente acabar com as fossas sépticas, dar qualidade em termos de água e de resíduos a todo o Concelho, a 100% do Concelho e apostar em algo que nos diz muito, que nos é muito caro. Primeiro, a solidariedade, o aspecto social e também a cultura, aliada a este grande fenómeno que invadiu Portugal, que é o turismo.

RD: Para rematarmos, de alguma forma sente estar no interior do interior?

NG: Sinto que se houver políticas concretas podemos ser mais fortes e estarmos mais próximos da Europa, mas com as políticas do Terreiro do Paço, estes 100 quilómetros que nos separam de um país Europeu, tornam-se muito complicados de percorrer, pois temos de ir sempre ao litoral para estarmos na Europa. Esse é o nosso grande problema. Deixem-nos gerir verdadeiramente um território integrado na Europa.

 

Notas Avulsas:

A freguesia de Torre de Moncorvo tem uma área de 35,88 km2 com 2891 residentes.
Vila e sede de concelho situa-se no sopé da Serra do Roboredo, a cerca de 400 metros de altitude, entre os rios Douro e Sabor.
A primeira vez que se referencia “Turre de Menendo Curvo” é nas inquirições de D. Afonso III. Segundo Abade Baçal “Mem”, “Mendo” ou “Menendo Corvo” eram nomes comuns na idade média que evoluíram para “Mencorvo” ao que se seguiu Moncorvo, já no séc. XVIII.
Torre de Moncorvo inicialmente foi uma povoação integrado no concelho de Santa Cruz da Vilariça até que D. Dinis lhe concede carta de foral em 12 de Abril de 1285. Posteriormente, vê-lhe outorgados outros privilégios como a construção de castelo e muralhas e de uma feira anual. A 4 de Maio de 1512, o foral foi renovado por D. Manuel I.
Possui um passado riquíssimo em história onde as pedras falam do passado glorioso dos seus habitantes.

Torre de Moncorvo (muitas vezes chamada simplesmente de Moncorvo) é uma vila portuguesa de dimensão média, pertencente ao Distrito de Bragança, Região Norte e sub-região do Douro, com 2 891 habitantes (2011).

 

 

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