Vossemecê quer uma galinha?

por PN | 2017.06.26 - 14:30

Queira fazer o favor de entrar e esteja à vontade. A casa é sua. Não repare nalguma desarrumação, mas… desde que vivo sozinho perdi rumo de vassoura, balde e panos.


Sente-se naquele sofá, que é aconchegado. É só sacudir a poalha.

Sabe… com os anos perdemos o brio e vamo-nos habituando a este estranho – decerto para si – desleixo. Porém, creia-me, é tudo uma questão de hábito.

A Deolinda – que esteja na paz do Senhor da Aflição – era muito videirinha e criou com aprumo os três rebentos. A Violete finou-se tamanhinha com a escarlatina e foi um mor desgosto. O Tónio foi para Pau e não mais voltou. Casou, dizem-me por aí. E já me deu dois netos. Mas nunca mos trouxe à bênção. O Quim está na Suíça vai para quinze anos. Veio cá uma vez e arrenegou-se comigo e com o estado a que deixei chegar tudo isto…


Vomecê topa, um homem só, velho e desapossado de pouco vive. E há uma altura em que uma réstia de sol e poucas dores do reumático, com uma côdea de conduto empurrada por meio quartilho de aguardente, nos dão alento para mais um dia igual a todos os outros dias. Só variam com a chuva, o frio e o calor…


Já não tenho a vaca, que vendi em Barrelas. Os recos foram-se pelo S. Antão. O “turco”, o rafeiro cheio já de sarna finou-se a um domingo ao fim da missinha, o beato. Era um amigalhaço…


Vossemecê quer uma “galinha”? O quê? Não sabe o que é uma “galinha”? S. João Baptista lhe perdoe, é uma cebola destas, graúda, com sal grosso. Se tivesse avisado que vinha, tinha cá briol para tempero, assim…

Casa de banho? Banho para quê? A retrete é lá fora na quintã e esteja à sua vontade que ninguém o incomoda. Só o mosquedo. E se for esquisito alivie-se na pia, que já não bebem dela os animais…

Naquela parede tem o espelho, se quiser ajeitar-se. Ou tinha, que o vidro foi-se. Talvez de mágoa, por só dar com a minha carantonha. Mas está lá a moldura e um homem para ver desgraças bem nela se acomoda.


Já vai embora? Mas se ainda agora chegou!

Sabe, nós os beirões temos fama de bem acolher. Se não lhe serve o que de vontade lhe ofereço… vá com Deus.

De tudo lhe ofereci e nada quis. Lá na terra grande de onde vem a fartura será mais fina e é a finezas que traz o hábito feito.
Se quiser, volte um dia.

Pode ser que ainda adregue comigo por cá…