Vítor Manuel Aguiar e Silva – o meu Mestre!

por Ana Albuquerque | 2018.01.03 - 22:16

 

Foi a primeira notícia que me chegou esta manhã, depois de ter partilhado um poema de Vasco Graça Moura, que hoje faria 76 anos: “Prémio Vasco Graça Moura atribuído ao Professor Aguiar e Silva”. Não que tivesse ficado surpreendida por mais este galardão, mas porque a ternura com que pronuncio o seu nome continua a trazer de volta todo o contributo que teve para o meu desenvolvimento como leitora e como professora desta nossa literatura.

É com muito orgulho que continuo a referir o seu nome nas minhas aulas ou nas formações que vou dinamizando. Segui sempre, com enlevo e respeito, tudo o que publicou. Confesso que me inscrevi muitas vezes, em congressos para o ouvir falar. Um deles, realizado na Universidade Católica de Viseu, a propósito de Senhora das Tempestades, de Manuel Alegre, livro de poemas que prefaciou, contribuiu sobremaneira para a escolha deste escritor para uma dissertação académica.

É o meu Mestre, porque continuo a vê-lo como o Professor que cativava a atenção dos alunos pela sua vastíssima erudição, pelo enlevo, pelo amor que expressava no seu olhar, na sua voz, nos seus gestos largos. Foi pelo fascínio das suas palavras que aprendi a querer ler muito mais, tomando consciência da profundidade e da riqueza de ler os textos literários com os olhos perscrutadores da alma.

Em 1984, o Anfiteatro IV, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, enchia-se com alunos finalistas dos cursos de línguas e literaturas e outros que escolhiam esta disciplina como opção, nomeadamente, os de Filosofia. Nas suas aulas,  ouvia-se um silêncio sagrado. Seguíamos atentamente as lições que preparava “cuidada e amorosamente”. Chegava com vários livros que colocava sobre a mesa e recomeçava na mesma linha onde nos tinha deixado na semana anterior. Não ditava, não tinha caderno de apontamentos. Dizia de cor, com o coração, as palavras que iluminavam as nossas tardes de Coimbra, a cidade mítica. Nunca faltei às suas aulas. Faltava a muitas. Tentava escrever tudo o que dizia, mas perdia-me nas linhas que as suas reflexões provocavam!

A Teoria da Literatura, da Almedina, foi um dos poucos livros que comprei com a minha parca mesada de bolseira. Há indubitavelmente um antes e um depois desta obra no âmbito dos estudos literários em Portugal e no mundo! O sistema modelizante primário, a nossa Língua, no qual se institui o sistema modelizante secundário, a Literatura Portuguesa e de Expressão Portuguesa, muito lhe devem pela contribuição ímpar da sua profunda e reconhecida investigação.

Para os alunos, os grandes Professores ficam num pedestal e lá permanecem. Parafraseando Derrida, pela mão do meu Mestre, o que fica da Escola, o que verdadeiramente conta é o que fica e perdura nos olhos e aos olhos dos seus alunos.

Obrigada, Professor, mais uma vez! Obrigada também pelas suas palavras de hoje, quando ao parabenizá-lo, o informei que agora sou docente da velha escola, Alves Martins, onde foi um dos seus mais brilhantes alunos, ao dizer-me: “Agradeço as suas palavras amigas e generosas. Neste declinar da vida, é reconfortante receber a gratidão de antigos alunos como a Ana. Gostei muito de saber que está a ensinar na «nossa escola», que relembro com tanta saudade…”

Nós também temos saudades suas, Professor!

 

(Foto DR)