Visões de um Interrail

por Luís Ferreira | 2017.09.10 - 20:59

 

No passado dia 2 de agosto, acompanhado por dois amigos e cofinanciado pelo Fundo Monetário dos Meus Pais, parti numa viagem pela Europa. Durante 24 longos dias tive a oportunidade de visitar 12 países, distintos nas suas geografias, culturas, hábitos, organizações e economias. Fui tão norte quanto Estocolmo (Suécia), tão sul quanto Split (Croácia), tão este quanto Cracóvia (Polónia) e tão oeste quanto o Luxemburgo.

Partimos com 10 kg nas mochilas e uma bandeira atada a uma delas. Chegámos com mais alguns kg nelas, a contrabalançar com alguns que perdemos dos corpos. Pela comida que se estranhava e na maioria das vezes não se entranhava, pelas longas, duras e compensadoras caminhadas que nos ocupavam os dias e pelos sonos rápidos e por vezes complicados que nos ocupavam as noites.

Em 24 dias conheci muito. Quase 30 gigabytes de fotos e uns bons terabytes de memórias e recordações. Claro que adorei conhecer as cidades e as suas culturas. Os edifícios tão diferentes, a organização das cidades, a cultura e o respeito das pessoas, por exemplo, pelos ciclistas. É ótimo conhecer as diferenças. Porque, como dizia um Argentino que por lá conheci: “enquanto não sairmos de casa, vemos o nosso país como sendo sempre o pior”. E fez sentido o que ele dizia… cada um com as suas dores, mas pensamos sempre, até ouvirmos outras realidades, que a nossa dor é maior. Eles queixavam-se da falta de segurança, nós queixávamo-nos dos salários, do emprego. E, por isso, mais que das cidades, gostei particularmente de conhecer gentes, as suas histórias e os retratos dos seus países. Viajantes de todo o mundo, em aventuras que duravam desde uma semana até dois anos. Tão variados quanto dois amigos Argentinos, um casal de Chilenos, um outro de Mexicanos, duas amigas Suíças, dois professores Ingleses, dois amigos Finlandeses, outros Australianos, Nova-Zelandeses, Canadianos, Americanos (aos magotes), Israelitas, Chineses, Alemães e alguns Portugueses, reconhecíveis ao longe por aquela tradicional pura raça lusitana. Conhecemos professores, psicólogos, engenheiros, arquitetos, estudantes e herdeiros. Uns abdicaram dos trabalhos para conhecer o mundo, outros, como nós, tiveram que ir às poupanças e aos bolsos dos pais para concretizar a aventura.

Foi, claro, uma experiência incrível, viagem que me permitiu conhecer imensas realidades particularmente diferentes da nossa. Consegui perceber que somos um país adorado pelo turismo, dada a ótima gastronomia, as boas paisagens, a gente que sabe receber … e o baixo custo de vida. Mas, claro está, se ganham muito lá fora e podem gastar pouco cá dentro, é bem bom para eles. Se ganhamos pouco cá dentro e vamos gastar muito lá fora, estamos tramados. Aliás: estivemos, em alguns casos. Ao longo da viagem senti na pele que 1€ português é bem diferente de 1€ no resto da Europa. Senti diferenças (por vezes astronómicas) nos custos e qualidades de vida. Reparei nas diferenças culturais e de metodologias dos países. Consegui confirmar que somos efetivamente um país desorganizado, ainda com muito a evoluir e crescer em maturidade e mentalidade, sortudo pela segurança, meteorologia e afável gente.

Finalmente, no dia 25 apanhei um voo de volta. Quando aterrei em Portugal era já noite. Noite escura de céu aberto e estrelado. Cheirava a Portugal. E por mais dores que tenhamos, Portugal é bom. Soube bem voltar, voltar bem. Soube melhor ainda saber que em breve voltaria a comer do prato farto português…

 

 

 

Luís Ferreira é natural de Ferreirim, Sernancelhe, tem 17 anos e é estudante de Economia.

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