VISEU SOB A SOMBRA DA CORRUPÇÃO E A LUZ DA INCLUSÃO!

por Carlos Vieira | 2018.11.05 - 08:10

 

 

Viseu tem estado, na última semana,  nas primeiras páginas dos jornais nacionais devido ao escândalo da “Operação Éter” da Polícia Judiciária, que levou à prisão preventiva de Melchior Moreira, presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP), ex-deputado e ex-vereador do PSD em Lamego,  e o empresário viseense José Agostinho sujeito a caução de 50 mil euros, suspeitos de corrupção e viciação de contratos para a implementação de lojas interactivas de turismo, por ajuste directo.

O Jornal de Notícias do passado dia 25, apontava, em grandes parangonas, de primeira página, o empresário como testa de ferro de Almeida Henriques, de quem teria sido sócio.

O actual presidente da Câmara Municipal de Viseu negou que alguma vez tivesse sido sócio daquele empresário, mas o JN confirma pelos registos comerciais que efectivamente Almeida Henriques e José Agostinho foram, respectivamente,  “sócios de duas empresas (a Gabiforma e a Celeuma) que constituíram a NaOnda.Net – Tecnologias de Informação, Lda, para prestação de serviços de tecnologias de informação”, tendo, “assim, pelo menos de forma indirecta, uma relação societária”.

Em primeiro lugar, devo dizer que, para mim, até haver qualquer sentença transitada em julgado, todos os implicados devem beneficiar da presunção de inocência.

É conhecida a vocação de Almeida Henriques para os negócios e embora algumas das suas empresas tenham acabado insolventes, como foi o caso da Gabiforma, esse é um risco que qualquer empresário enfrenta. Já tive até oportunidade de dizer a Almeida Henriques, na Assembleia Municipal, que ele mereceria ficar nos anais da história da cidade com o cognome de “O grande facilitador”, já que se preocupa tanto em facilitar negócios privados, como aconteceu quando anunciou, ufano, numa sessão daquele órgão autárquico, que a reclamada unidade de radioterapia viria para Viseu…para o Hospital da CUF(!!!); ou quando pretendeu passar os SMAS para Águas de Viseu, E.M., garantindo, perante a acusação da oposição de estar a abrir as portas à privatização da gestão da água pública, que com ele isso não aconteceria, mas admitiu que se no futuro algum presidente o pretendesse fazer a responsabilidade já não seria sua.

Mas nada disto permite levar alguém a especular, antecipando-se à investigação e ao julgamento deste caso. Esperemos apenas que não demore tanto tempo como o da Operação Marquês, para bem da Justiça e dos eventuais inocentes.

                   PARADINHA JÁ TEM UMA ESCOLA MODERNA E INCLUSIVA

Mas Viseu também foi notícia nos jornais nacionais por bons motivos. O Público do passado Domingo, 28 de Outubro, publicou uma extensa reportagem sobre a Escola de Paradinha onde “há mais de dez anos que  não se viam crianças não ciganas” no 1º ciclo. “Havia-as no jardim-de-infância, a funcionar num edifício à parte. Chegada a idade escolar, distribuíam-se por outras escolas do concelho”.

Curiosamente, depois de eu ter denunciado essa situação, Almeida Henriques, na sessão da Assembleia Municipal de 26.06.2017 disse que não era verdade, e que até lá tinha ido “visitar o jardim infantil e a Escola Básica” e que verificou que “quase metade das crianças são de facto de etnia cigana”. Também Ribeiro de Carvalho, líder da bancada do PS, assegurou, na qualidade de único habitante de Paradinha naquela assembleia, que “nas escolas de Paradinha, quer na pré-primária, quer na primária, a integração das populações de etnia cigana é perfeita”. Há pessoas que até podem ir à horta, mas ou não vêem as couves ou só vêem as que lhes interessam. E de nada valeu eu ter dito que sabia que um morador do bairro social tinha escrito ao presidente da Câmara pedindo para que o filho fosse transferido para uma escola normal, inclusiva, porque não queria que ele frequentasse uma escola só de ciganos, como a de Paradinha.

Mas voltemos à reportagem. “Agora, no 1º ano, há quatro crianças ciganas e oito crianças não ciganas, incluindo um menino com trissomia 21 e outro com paralisia cerebral. Agora, estudantes ciganos e não ciganos almoçam no refeitório, correm atrás da bola, aprendem...”.

Tudo porque  algumas crianças não ciganas que tinham acabado de experimentar o método de ensino inspirado no Movimento da Escola Moderna, que a educadora Conceição Neto imprimira com êxito no pré-escolar,  não quiseram mudar para outra escola do 1º ciclo, e os respectivos pais e mães juntaram-se a pais e mães de crianças ciganas e com o apoio do director do agrupamento Infante D. Henrique, João Caiado,  elaboraram um projecto educativo “Paradinha – Escola e Comunidade”, baseado na participação democrática e na entreajuda dos alunos.

Parabéns aos alunos e alunas da Escola de Paradinha, aos seus pais, mães, professores e educadores que tornaram possível este exemplo magnífico de inclusão e sucesso escolar, de interculturalidade e solidariedade comunitária.

 

“BRASIL, IRMÃO, TEU POVO VENCERÁ! / PARA VINGAR A TUA DOR / O SANGUE EM FLOR RENASCERÁ!”

 

(Refrão de “Sangue em Flor”, canção do GAC aquando do assassinato de 3 dirigentes do PC do B pela ditadura militar, editada em single, com o poema de Sophia de Mello Breyner, “Brasil 77”, dito pela própria, no lado B).

As ameaças e agressões aumentaram de intensidade, mal foi eleito o fascista Bolsonaro. Fascista, sim, apesar do branqueamento e defesa de Cristas, Portas, Nuno Melo e Luís Nobre Guedes. E ainda há quem diga que não há em Portugal partidos de extrema-direita…