Virtualidades das crises económicas!

por José Chaves | 2018.07.23 - 23:10

 

A propriedade a par da caridade são dois demónios que transformam pessoas.

Se na primeira se justificam mortes, torturas, discriminações e outras condutas vergonhosas em nome da propriedade, na segunda consegue-se transformar um monstro num estimado filantropo.

A adoração à propriedade faz com que uma pessoa aparentemente respeitadora de todos os grandes princípios humanistas, com receio de ter de dividir o pouco que tem, assusta-se de tal forma que se insurge contra quem pode colocar em causa esse seu bocadinho de propriedade. Alimenta a ideia que a terra é sua, o país é seu e até as pessoas são suas. Entra em pânico só com a ideia de poder ter de dividir o pouco que tem… e se forem de outro país, ainda pior… Por isso o ódio aos imigrantes, às minorias étnicas e sobretudo aos refugiados… tentam fazer crer que é uma questão religiosa, quando o que está por detrás deste ódio foi sempre esse sentimento que há coisas (propriedade) que são suas e indivisíveis – o pânico de terem de dividir o pouco (alguns, muito pouco) que têm!

Já quando à caridade, feita de forma pública e devidamente anunciada, quer seja no grupo de amigos e familiares, quer esta seja planetária, consegue que alguém que, eventualmente, tenha sido sempre um sacana, passe como que por artes mágicas a ser pessoa altamente considerada.

É pois nas crises económicas que se assiste a algumas “saídas do armário” – o pânico da propriedade leva-os a revelarem-se e demonstrarem que aquela aparente tolerância que demonstraram ao longo da vida, nunca passou de um disfarce, que as boas condições em que viveu nunca o fez despoletar. Assim como é também nas crises económicas que os filantropos florescem como ervas daninhas num qualquer jardim – é pois o tempo, quando alguns passam por sérias dificuldades, de poderem publicitar e mostrar toda a sua magnificência – sem a pobreza como é que alguns ricos poderiam mostrar o seu bom coração?

E esta crise económica tem ensinado tanto…

Vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP)

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