VIII Edição dos Jardins Efémeros

por Carlos Cunha | 2018.05.16 - 17:52

         Expectativa é substantivo que melhor define aquilo que sinto em relação aos Jardins Efémeros. E porquê expectativa? Este tipo de sentimento remete-nos para duas respostas distintas: a frustração ou a satisfação.

 

Por temperamento, e pelo avançar da idade tornei-me numa pessoa mais moderada, que tem por tendência a procura do equilíbrio. Por isso, quando qualquer evento fica aquém das minhas expectativas iniciais, tento não ser demasiado pessimista, pois, acredito que quem o projetou procurou dar o melhor de si. Por outro lado, também não sou daqueles que se deixa deslumbrar até à euforia. Se o avançar da idade me tornou mais cético, também é igualmente verdade que melhorou em mim a capacidade de apreciar as diferentes manifestações de cultura, ainda que esteja bem longe de ser um “expert” nestas matérias. Tal como escrevia Ricardo Reis sinto a realidade tal e qual ela se me apresenta, daí que a minha apreciação se baseie maioritariamente nas emoções em mim despertadas pela manifestação artística do que pela sua apreciação técnica para a qual não possuo conhecimentos avalizados.

Gosto dos Jardins e gosto mais ainda que eles façam parte da vida cultural da nossa cidade de há oito anos a esta parte. Viseu é, por tradição, uma sociedade conservadora habituada a Cavalhadas e Feira de S. Mateus, não vejam nisto nada de pejorativo, percebam apenas que quem idealizou os Jardins teve de “mudar mentalidades”, fazendo-as apostar num evento desta natureza numa cidade do interior. E ainda bem que o fizeram e, por isso, o meu reconhecimento!

Ao longo destes oito anos, a história dos Jardins tem sido feita de altos e baixos, havendo anos em que gostei mais do que outros, mas, desde a primeira edição, que sou, durante o mês de Junho, um assíduo peregrino deste evento, deslocando-me ao Centro Histórico (CH) para assistir a espetáculos de música, dança, teatro, exposições e tertúlias.

Os Jardins têm cumprido a sua função ao longo destes anos, trazendo ao CH vida ou já nos esquecemos que esta zona nobre da cidade desperta para a vida cada vez mais durante a noite essencialmente às sextas, sábados, domingos à tarde e em vésperas de feriados. Os Jardins trazem cultura ao CH e oferecem-na gratuitamente a quem a procura! Não há sentimento mais nobre do que tornar a arte e a cultura acessível a todos!

Este ano, os JE, por questões de financiamento ou da falta dele, tiveram de encolher, voltando ao seu formato inicial. Às vezes, é necessário dar um passo atrás para a seguir serem dados dois em frente! Os Jardins trouxeram muita coisa boa à cidade, foram os percursores da “street art” através do coração assinado pela Liliana Rodrigues. Viseu teima em querer entrar neste domínio, estampando, através do seu Festival, nas paredes dos prédios da cidade arte que pouco tem a ver com as nossas raízes. Assumimos Viriato e a Cava que tem o mesmo nome como símbolos da cidade, mas tatuámos S. Pedro na R. de Serpa Pinto.

Até a forma como se passaram a decorar os espaços públicos passou a ser diferente por influência dos Jardins, disso não tenho qualquer dúvida e a Autarquia também não a terá certamente.

A edição do ano passado foi uma das mais paradoxais para mim. Pela positiva ficou-me marcada na memória a exposição que esteve patente na R. Direita, no edifício da antiga Fetal, onde a precisão, a minúcia, o cheiro e a beleza de um tapete oriental de especiarias me entraram pelos sentidos adentro, até ficarem gravadas na minha memória. Pela negativa registei os tijolos espalhados pela Praça D. Duarte e Largo Pintor Gata.

Espero que em 2018, Os Jardins, ainda que em versão mais concentrada, sejam fiéis aos seus princípios, e que o “Corpo” transborde criatividade individual e coletiva, elevando Viseu muito além das suas fronteiras. Uma vez mais, como é hábito a cada ano que passa, as ruas do CH tantas vezes desertas ao longo do ano voltarão a encher-se de gente que nos procura para apreciar a VIII Edição dos Jardins.

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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