Vamos limpar o Rio Paiva 2015

por Maria Sobral | 2015.09.04 - 08:59

 

Nos anos 80 e 90, quando o termo “ecologia” se tornou obrigatório e passou a ser além de uma disciplina, uma doutrina, ficámos a saber que tínhamos encaixado em fragas e penedos o Rio mais limpo da Europa. Nesse rio havia trutas, as mesmas que Aquilino Ribeiro nunca recusava, escabechadas ou não. Ainda as há, mas hoje passaram a ser petisco gourmet. Com características únicas de fauna e flora, rapidamente alcançou o título de Sítio de Interesse Comunitário (SIC Rio Paiva), incluído em território da Rede Natura 2000, e assim andou, calmo e prazeroso, a ser objeto de várias intervenções de conservação financiadas pela União Europeia, justificadas pelo estatuto que adquiriu. Continuou a ser um dos mais limpos da europa e um dos segredos mais bem guardados da beira selvagem, onde se engrossa para ir alimentar o Douro.

Com aproximadamente 110 km de extensão, o Paiva nasce no planalto da Nave, na Serra de Leomil, no concelho de Moimenta da Beira a cerca de 1 000 m de altitude e desagua em Castelo de Paiva, brinda 10 concelhos com as suas águas cristalinas e cheias de vida, Arouca, Castelo de Paiva, Castro Daire, Cinfães, Moimenta de Beira, São Pedro do Sul, Sátão, Sernancelhe, Vila Nova de Paiva e Viseu.

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Mas um segredo sucumbe sempre, e este sucumbiu aos “passadiços”, uma excelente ideia, numa ainda melhor iniciativa de objetivo turístico-económico, e um país inteiro decidiu fotografá-lo. Mas se todos o conseguem apreciar, poucos lhe dedicam o respeito que merece. E os problemas do passado, outrora já bastante regulados, voltaram a estar na agenda do dia. A sua conservação anda sobre ténues linhas, quando a certas e determinadas descargas de efluentes que continuam a persistir, se lhe junta o desvario de partilha em rede social e peregrinação para a foto, esquecendo o lixo. Com isto não quero dizer que o problema do lixo tenha aparecido só agora, ou seja consequência do aparecimento dos passadiços, não! O lixo será sempre uma consequência da estupidez humana, do seu egoísmo telúrico, agravado pela vida curta que temos neste planeta, e que nos impede de ver as consequências a médio e a curto prazo dos despojos que vamos deixando na nossa passagem.

No passado dia 29 de agosto a Associação de Defesa do Vale do Paiva, S.O.S. Rio Paiva organizou e levou a cabo mais uma edição do Vamos Limpar o Paiva, onde associações, autarquias e cidadãos se envolvem num misto de espírito de voluntariado, consciência ambiental, e nobreza. Como participante/representante do Centro Interpretativo Aldeia da Faia, e desencaminhadora (no bom sentido) da Manta Verde, Associação da Biointerpretação de Lamosa com sede no Centro Pedagógico da Rede Natura de Lamosa, fomos brindados pela presença de dois responsáveis da S.O.S. Rio Paiva no fim-de-semana anterior. Fez-se uma caminhada até ao Paiva, inserida no I Greenday Lamosa, e recebemos o merchandise necessário à execução da iniciativa. Foi aí também que me propus colocar uma série de questões que penso serem de todo pertinentes, focando alguns assuntos que se prendem com a nova realidade criada pelos passadiços, e que permitirão ao leitor um conhecimento mais profundo do trabalho da S.O.S. Rio Paiva e dos números com que se define a ação Vamos Limpar o Rio Paiva:

Há quantos anos existe a S.O.S. Rio Paiva e há quantos desenvolve a iniciativa “Vamos Limpar o Rio Paiva?”

“A S.O.S. Rio Paiva existe há 16 anos, e a sua criação foi motivada pela possibilidade de construção de uma grande barragem no Rio Paiva em 1999. A iniciativa “Vamos Limpar o Rio Paiva” começou em 2013 com o objetivo de promover a mobilização cívica em defesa do rio e a sensibilização para a sua conservação.”

Durante esses anos, apenas o lixo aumentou, ou também aumentou a participação, consciencialização e envolvimento de entidades públicas e privadas?

“Em comparação com o ano de 2013, notamos que o lixo diminuiu ligeiramente nas zonas de lazer, sendo notória uma maior preocupação dos frequentadores das margens do rio e das próprias autarquias em manter as zonas limpas. A participação este ano foi semelhante a anos anteriores, sendo apenas notório um maior interesse das autarquias em colaborar na iniciativa.”

Quais os reais impactos do último ano com a presença dos passadiços, e o seu consequente aumento de visitantes?

“A zona onde foram construídos os passadiços, no concelho de Arouca, era a mais inacessível de todo o rio Paiva, e com a construção desta infraestrutura tornou-se na zona de maior pressão humana, uma vez que é frequentada diariamente por largas centenas de pessoas e veículos estacionados em vários acessos ao rio. Apesar dos aspetos positivos da obra, não podemos ignorar os impactos desta transformação na biodiversidade, o aumento de resíduos deixados pelos visitantes, além dos danos causados na vegetação ripícola.”

Na vossa opinião, o que urge pensar/fazer? Em termos de resolução para a manutenção dos passadiços mas com garantia de igual ou melhor sustentabilidade ambiental?

“Uma das nossas maiores preocupações é a identificação dos focos de poluição que estão a afetar gravemente a qualidade da água do Rio Paiva. Nesse sentido estamos a trabalhar em cooperação com a Câmara Municipal de Arouca que tem demonstrado grande preocupação com o problema. No caso do passadiço estamos a aguardar uma reunião com a autarquia no sentido de obter mais informações sobre o projeto e as medidas que a autarquia pretende adotar no futuro, mas parece-nos óbvio e urgente limitar o acesso de visitantes àquele local, à semelhança do que acontece noutros parques naturais e zonas protegidas.”

Da resposta dada às perguntas colocadas, podemos rapidamente inferir que, se não fôr devidamente acautelado o acesso aos passadiços, e por estes se encontrarem numa zona que anteriormente era inacessível, as consequências poderão vir a ser desastrosas. Mas isto já é uma luta que todos conhecemos bem…faz-se a obra mas não se pensa no pós-obra, no impacto, nas consequências reais, e na personalidade de uma certa franja da população que apenas se movimenta pelo que está em voga, normalmente mal informada, mal preparada e por que não, mal criada. Ainda considerando a inacessibilidade, esta será também verdadeira para tudo aquilo que se larga passadiço abaixo, indo cair livremente no leito do rio ou nas margens, até que a natureza siga o seu curso e tudo desague no Douro.

Descansa-me o facto de ter a certeza que a S.O.S Rio Paiva e as autarquias mais próximas, com Arouca à cabeça, reconhecem o problema e iniciaram conversações para que algo possa ser feito em tempo útil.

Entretanto, muito me orgulha que enquanto uns se preocupam em ter a fotografia ideal, com ou sem pau de selfie, outros se preocupam em minimizar os danos, participando voluntariamente na recolha de lixo e na identificação e localização de “monstros” para posterior recolha, e passo a nomear além das já referidas, a Câmara Municipal de Sernancelhe na pessoa do Sr. Vereador da Cultura Eng. Armando Mateus, os Bombeiros Voluntários de Castelo de Paiva, Ardentia Marine (mergulhadores), Associação Eco Turística DouroPaiva e Associação dos Amigos de Paradinha.

Dos 10 concelhos onde o Rio Paiva passa, apenas entidades de 4 se envolveram, Castelo de Paiva, Cinfães, Arouca e Sernancelhe, o que é uma pena, pois muitos dos que não se fizeram representar se aproveitam de uma forma ou de outra deste recurso natural. Sem querer ferir suscetibilidades, dou apenas um exemplo que me é mais próximo, no concelho de Moimenta da Beira, mais concretamente na praia fluvial de Segões não houve qualquer participação/intervenção este ano, e desconfio que tendo em conta o número de utilizadores, muito haveria para limpar a jusante da dita…

…mas, fica cumprido e bem cumprido o objetivo primordial, a sensibilização das populações, e o passar do chavão maior da ecologia, a conservação.

 

 

 

Geóloga por graduação e afeição telúrica natural.
Formadora na Escola Profissional de Sernancelhe.
Técnica dinamizadora do Centro Interpretativo Aldeia da Faia.
Promotora de consciência ambiental e cultural.

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