Vai-se andando

por Luís Ferreira | 2017.03.28 - 09:09

 

Turistar está na moda em Portugal. Muita história e natureza a visitar, baixo custo de vida relativo associado a boa comida e bom vinho, clima que não desanima e gente que sabe receber. Um povo que abre, humildemente, as portas de casa a quem queira, de boa vontade, entrar.

Que “numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa” já todos o tomamos como verdade adquirida. É uma característica do nosso povo. Estamos sempre dispostos a receber visitas com o maior sorriso e com a mesa mais apetrechada que se consiga arranjar.

Há poucos dias, lançou a OCDE os resultados de um estudo sobre o bem-estar da sociedade, visto numa perspetiva subjetiva dos cidadãos. Tal pesquisa foi realizada recorrendo a um indicador que mensura a média das autoavaliações de satisfação com a vida, através de uma escala de 0 (pouca satisfação) a 10 (nível máximo de satisfação com a vida). E assim, a média total dos países analisados foi de 6.5, enquanto que em Portugal o valor observado foi de 5.1. De referir, no entanto, que com este valor ocupamos o lugar 37 de um ranking de 38 países, onde abaixo de nós apenas se posiciona a África do Sul.

A conclusão que daqui parece evidente é a de que existe uma contradição nos meus parágrafos anteriores. Afinal, sabemos muito bem receber, mas o sorriso que temos na cara parece mascarar um estado de espírito mais negro. Na mesa colocamos efetivamente o que podemos, mas na cara parece que colocamos um sorriso maior que a boca. E, mesmo que a “máscara” pareça resultar no turismo, pode retratar um grave problema estrutural da nossa economia. Pode querer isto dizer que as nossas perspetivas atuais e as expetativas quanto ao futuro não são as melhores quando falamos, por exemplo, do país, da economia, do emprego, da saúde, dos salários, etc. Além disso, facilmente se percebe também que trabalhadores insatisfeitos são trabalhadores menos inovadores e produtivos (o que é verdadeiramente um dos mais graves problemas da nossa economia atual).

E, já em jeito de conclusão deste raciocínio (que embora muito mais complexo, tentei tornar acessível ao leitor), é percetível que a solução não está unicamente em incentivar o turismo estrangeiro. Talvez a solução (quer social, quer económica) passe também por políticas de proximidade que atuem sobre a confiança dos consumidores e a satisfação do povo. Políticas que criem efetivamente uma sociedade que naturalmente saiba mais que “sorrir e acenar”, uma sociedade que passe ao nível seguinte do “cá se vai andando”.

 

 

Luís Ferreira é natural de Ferreirim, Sernancelhe, tem 17 anos e é estudante de Economia.

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