Uma rede de emoções

por Carlos Cunha | 2017.12.18 - 18:26

 

O bulício e a agitação típicos desta época do ano têm tendência a abstrair-nos do pensamento, numa espécie de afastamento que haverá, um dia, de dar em divórcio.

Qualquer motivo é bom para não pensar. Escrever é uma consequência do pensamento e para escrever é preciso termos algo que valha a pena dizer e que seja suficientemente interessante ou estúpido para fazer com que os outros sejam capazes de deter alguma da sua fugaz atenção naquilo que comunicamos.

Se tivermos algo a fazer, onde ir ou em que participar livramo-nos quase sempre de pensar. Talvez, por isso, as políticas autárquicas sigam cada vez mais esta tendência, proporcionando aos cidadãos uma parafernália de atividades culturais, desportivas e recreativas, que se destinam a preencher algum do espaço vazio que existia entre a agitação do quotidiano e que podia ser ocupado pelo subversivo ato de pensar.

Para além disso, com os smartphones e com a consequente facilitação do acesso à internet, associada a uma significativa melhoria das câmaras fotográficas incorporadas nos telemóveis e à atração pelas redes sociais, surgiu uma nova forma de comunicar. Estamos mais próximos, se calhar até sabemos mais uns dos outros do que aquilo que deveríamos, mas estamos a deixar de conversar uns com os outros presencialmente.

Hoje já não basta viver o momento, usufruí-lo como ele acontece e com aqueles que o fazem acontecer. Despontou em nós, através das redes sociais, um desejo árduo de mostrarmos por onde andamos, com quem vamos, o que vestimos, o que comemos e bebemos, onde passamos férias…

Passámos a ter amigos virtuais a quem, por educação damos os parabéns quando fazem anos, alcançam alguma conquista importante ou com quem somos solidários na hora do desconforto e da dor.

Nesse aspeto, podemos dizer que as redes sociais facilitaram imenso a vida a quem como eu se esquecia com frequência de datas de aniversários até de familiares próximos, quanto mais de vizinhos ou amigos. Não sei se esta mudança de hábitos na forma como nos relacionamos com os outros foi melhor ou pior, mas que estamos diferentes parece não haver dúvidas.

As redes sociais são hoje uma espécie de antigos Largos do Pelourinho, onde se aplica a justiça popular, se fazem linchamentos ou se praticam absolvições. No entanto, também não deixa de ser verdade que a partir das redes sociais se conseguem juntar inúmeras pessoas em torno de uma causa comum, principalmente, se esta for de cariz solidário, tal como aconteceu em Viseu, quando, em três ou quatro dias, um concelho inteiro se uniu para ajudar quem passou a precisar, depois dos terríveis incêndios de 15 de Outubro.

Hoje, é através das redes sociais que a informação circula rapidamente, mas tal como aparece, tem tendência a consumir-se muito intensamente nas primeiras horas, para passados dois ou três dias ir gradualmente desaparecendo, porque na política, sociedade, negócios ou no desporto surge um novo assunto ou tema para debater.

Vivemos numa espécie de atração incandescente e fatal sobre determinado assunto, para o qual temos uma resolução, uma opinião ou uma sentença, transformando-nos em autênticos “tudólogos” dos tempos modernos.

Por isso, faço votos para que vivamos mais este Natal em família e por momentos deixemos de lado esta voragem das redes sociais, assim vou procurar fazer.

 

 

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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