Uma nova forma de ler ao seu alcance…

por PN | 2019.12.01 - 21:05

Hoje, ao alcance de qualquer atento apreciador de leitura há uma nova e mais rica e intensa forma de ler.

Eu deixo a sugestão… Estava a ler o último romance de  Rebecca Makkai,Os Otimistas “ (Ed. ASA) e, a certa altura, no meio da narrativa temporalmente pendular, situada em capítulos alternados decorridos em 1985 e 2015, deparo com um conjunto de nomes de pintores, com o denominador comum de terem vivido e cruzado suas vidas em Paris, na segunda década do século XX.

De Soutine a Metzinger, Foujita e Pascin, a Mukhankin e a Novak, passando por Amedeo Modigliani e Jeanne Hébutorne…

A curiosidade levou-me a tentar ver as suas obras pictóricas, o que qualquer motor de busca na internet permite fazer. Neste caso usei o Google e, fascinado com o novo limiar transposto, numa espécie de metaleitura ou leitura para além da leitura, descubro nova intriga, nova teia… a de Amedeo Modigliani e Jeanne Hébutorne, sua companheira, mãe de uma filha, Jeanne Modigliani, e a estranha e trágica história de amor por eles vivida.

O leitor tem aqui os dados todos para ir pesquisar. Deliciar-se a pesquisar. Veja os quadros que ambos pintaram e saiba que Amedeo morre aos 36 anos, a 24 de Janeiro de 1920, vítima  de tubercolose meningítica e Jeanne, sua mulher e companheira, se suicidou no dia 26 desse mês, aos 21 anos, quando estava no 9º mês da gravidez do segundo filho, atirando-se de um 5º andar.

Se Modigliani, já conhecido como pintor, teve um funeral público com inúmeros participantes, Jeanne, ignorada, foi a enterrar no mesmo dia 27, apenas pelos pais acompanhada.

Nove anos depois, o irmão mais velho de Modigliani conseguiu a trasladação dos restos de Jeanne para uma campa comum, ao lado do seu amado Amedeo, no cemitério do Père Lachaise, em Paris.

Esta história parece uma lamechice romântica, mas, de facto, foi uma tragédia que tirou a vida a dois artistas, um consagrado e outro promissor, ele falecendo por doença ao tempo incurável, ela suicidando-se após a morte dele, por decerto não encontrar razão para a sua existência sem Amedeo a seu lado.

Mais um triste romance de amor a ter desfecho dramático… só que aqui, foi a vida real que escreveu suas infaustas páginas…

Experimente ler… assim, desta forma e aproveitar quando o livro falar num pungente requiem de Andrew Webber, “Pie Jesu”, não resista e vá ao youtube ouvi-lo.

Verá que desta forma a narrativa de “Os Otimistas” (ou de qualquer outra obra) ganhará dimensões inusitadamente novas e criará novas pistas para o enleio criado entre a obra e o leitor, entre a ficção e o real.

Nota final: Enquanto professor que fui, de Língua Portuguesa, Literatura Portuguesa e Didáctica da LP, acho não ser despicienda esta forma de ler com os alunos, assim os motivando com recurso às tecnologias de informação e comunicação, ao alcance de todos, em contexto de aula.

Paulo Neto