Uma nação refém de “pardais” & “duartes”

por PN | 2019.08.09 - 14:57

A intransigência negocial entre patronato (ANTRAM) e Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) mostra a fragilidade de um país que, e de repente, fica refém de um punhado de indivíduos.

Talvez fosse tempo, se as transportadoras estão tão prósperas, renovando constantemente suas frotas, de o Governo ter o seu próprio contingente de camiões cisterna e uma equipa profissionalizada de condutores desses veículos, dependentes de uma direcção-geral a criar, sob a égide do Ministério do Planeamento e das Infraestruturas, ou outro.

Desse modo, talvez essa medida flexibilizasse os parceiros em recorrente litigância e pusesse fim a uma intransigência desastrosa e capaz de gerar prejuízos de milhares de milhões de euros a um país já de si extremamente fragilizado.

De um lado um tal Pardal, advogado caído em voo picado sobre o SNMMP, muito apostado no vedetismo pessoal – até parece que já foi convidado para encabeçar uma lista de deputados de um certo partido por Lisboa – com um passado “estranho” lá pelos lados de França, é o rosto visível da parte dos motoristas aproveitando pessoal e milimetricamente a mediatização que lhe é concedida. Há sempre um “actor principal” no meio dos figurantes…

Do outro, a ANTRAM, com empresas associadas detentoras de milhares de camiões cisterna (tipo Paulo Duarte Transportes e algumas mais), invocando a sua “razão” (?), sem acautelar o mal que está a fazer a Portugal.

Parar o/um país (se é sempre uma calamidade) em Agosto é mais complicado que noutros meses, pois é época de incêndios, de maior movimento nas estradas, de redobrados acidentes, de mais “aperto” nos hospitais, de turismo que tanta entrada de euros dá à economia nacional, aviões parados, frota pesqueira imobilizada, etc.

Evidentemente que ninguém morre se não sair de férias. Mas há os outros, aqueles que vêm passar férias a Portugal e desistem de o fazer perante um cenário de “crise energética”, cujas consequências globais ainda não imaginamos quais sejam, se este “braço de ferro” se mantiver.

Ademais, nºao querendo ser catastrofista, tudo pode começar a escassear, desde os bens de primeira necessidade nos supermercados, até rações pecuárias, medicamentos, etc., etc., etc.

Além disso, o cenário geral visível de um país com longas filas de espera de veículos para abastecer (com sucesso ou não) é um péssimo cartão de visita internacional.

É o rosto de um país inerte, parado, sem o dinamismo vital do movimento… Logo, desaconselhável.

O leitor ia para um desses destinos passar férias?

De facto, o Estado estar nas mãos de tão poucos, assista a quem assistir a razão, é de uma inadmissível fragilidade, pois condena um país inteiro a sofrer as agruras dos inegociáveis direitos e deveres de umas centenas.

Sem pôr em causa o inalienável direito à greve, cumpre ao Governo e perante um previsível “estado de sítio”, ajudar a negociar soluções para obviar à irreversibilidade dos factos.

Hoje o Conselho de Ministros decretou a “situação de crise energética” a parcos 3 dias do início da greve. Já é alguma coisa. Mas chegará?

Paulo Neto

(Fotos DR)