Um país de quintinhas

por Alexandra Azambuja | 2017.07.14 - 17:25

 

 

Um dos nossos pequenos grandes males é esta mania nacional das quintinhas. Atordoados com aquilo que está próximo, que nos é familiar e reconhecível, vamos lentamente cegando para  o outro lado do muro.

E é assim que às vezes o fundamental nos escapa, debaixo dos olhos, ao alcance da mão. Como o excelentíssimo Fórum Floresta que no sábado passado esteve em Leiria, e que trouxe 4 painéis de valiosos oradores* para falar da floresta no combate às alterações climáticas, de como produzir valor e ser sustentável, de ordenamento e gestão florestal unificada, do papel do Estado na estrutura fundiária florestal e na gestão florestal eficaz.

Resumindo: num único dia, ali na Escola Superior de Tecnologia e Gestão, especialistas sobre  floresta trouxeram respostas para muitas das questões que assolam o país desde há muito, questões que por não resolvidas, levam consigo vidas, como sabemos todos e como Pedrogão Grande nos tristemente lembrou.

No único painel a que consegui assistir,  algumas das certezas que se foram propagando nos últimos tempos são esquartejadas com método e ciência. Muitas realidades fora dos holofotes mediáticos são trazidas a lume, como as dos pequenos proprietários que entre impostos e pagar do bolso para limpar um terreno que não é nem vendável nem lucrativo se torna um pesadelo; como a necessidade de informação generalizada e apoio técnico para realizar o tão falado cadastro; como a necessidade de ter a Extensão Agrária a funcionar, essa especialidade esquecida que serve para difundir conhecimento junto de agricultores e silvicultores; como o silêncio mortal sobre o problema do nemátodo do pinheiro,  como a urgência de uma entidade reguladora entre a oferta de produtos florestais muito pulverizada e uma procura concentrada nas fileiras do papel e cortiça; ou a falta de um Código da Floresta; ou a utilização da biomassa com aproveitamento da estilha e rebanhos comunitários  para limpar as matas; perceber que o êxodo rural é complexo, multifactorial e veio para ficar; que é vital um sistema agro-silvo-pastoril que garanta rendimentos no curto, médio e longo prazo; e ainda, como assumir a floresta não rentável: se precisamos de espécies que demoram 50 anos a ser lucrativas, teremos de em conjunto olhar para soluções em que o quintalinho do outro é o nosso quintalinho, por mais distante que esteja de nós.

Ou vamos esperar que alguém seja suficientemente louco para  plantar sozinho as “árvores bombeiras” em nome da prevenção dos incêndios de todos nós?

 

 

 

* Oradores da Associação de Promoção ao Investimento Florestal, da Associação Florestal de Portugal, do Departamento de Ciências Florestais e Arquitectura Paisagista da UTAD, do Centro de Estudos Geográficos da UL, do Centro de Ecologia Aplicada do ISA, do Instituto de Ciências Sociais, da Federação Nacional dos Baldios, do Centro de Estudos de Recursos Naturais e da Quercus. Organização do Bloco de Esquerda.