Um corpo de almas (des)feito…

por Amélia Santos | 2016.11.25 - 12:26

 

Durante toda a vida ouvi falar na dicotomia corpo /alma, como duas realidades diferenciadas, como duas entidades independentes, que vivem em casas diferentes, com distintas divisões, ordens e regras. Com problemas, desarrumações e obstruções autónomas. E habituamo-nos a pensar que assim é. Um não tem relação com o outro. Ou melhor, apresenta uma relação cordial, de boa vizinhança, já que a existência de um está diretamente relacionada com a do outro, a não ser assim não faria sentido a noção de vizinhança…Uma grande tristeza é problema da alma. O meu corpo nada tem a ver com isso. Será? Será que não tem mesmo?

A relação corpo /alma não é efetivamente uma mera relação de vizinhos!

Só me dei conta da verdadeira ligação entre corpo e alma quando frequentei pela primeira vez as aulas de ioga, numa fase de muito cansaço, como quem diz, de esgotamento, em que a dor de cabeça se torna uma constante, em que as insónias nos roubam as fundamentais horas de descanso e em que vislumbramos à nossa frente o desabar, a queda pelo desfiladeiro emocional. Curioso foi perceber tão tardiamente que um exercício físico, que consiste em movimentar lentamente todos os músculos do nosso corpo (mesmo aqueles de que nem sabíamos a existência), teria um efeito tão relaxante para a mente. Porque, efetivamente, as tensões da alma alojam-se no corpo, entendi desde a primeira aula. O corpo é o senhorio dos problemas da alma. Afinal, a relação de vizinhança é muito mais que isso, não é uma relação apenas cordial. São família muito próxima e dependem um do outro para sobreviver às agruras da vida.

Que bem me senti quando, de repente, alguns exercícios, me ajudaram a desfazer equívocos hospedados nos músculos, a resolver os embróglios causados por aquela dor de costas ou o torcicólo. De facto, o meu pescoço alberga (no sentido de albergue, mesmo…) as tensões acumuladas, às vezes sem espaço para todas, numa espécie de camaratas ou bliches… e em momentos difíceis, creio que até arde, causando danos irreparáveis na dor de cabeça, na dor de costas… um incêndio devastador da casa dos nossos segredos, dos nossos silêncios, recalcamentos e medos… E que bem sabe espreguiçar como o gato, fazendo todos os movimentos que ele faz, esticar os dedos dos pés e das mãos, alongar… Relaxar o couro cabeludo e o braço esquerdo e a perna direita…a língua e as pálpebras… Os mais ínfimos músculos do corpo alojam as mais invisíveis e aparentemente irrelevantes ansiedades e sofocos da alma. E nós sem consciência plena disso!

Outro pequeno grande ensinamento relacionou-se com a respiração. Aprender a respirar revelou-se a grande aprendizagem. Pois, então, nós não respiramos desde que nascemos? E todos os dias? Claro. Mas não usamos todo o potencial dos nossos pulmões, não o fazemos conscientemente, não deixamos que o ar cirlule livremente e oxigene o nosso cérebro com toda a diligência. Com as costas direitas, coluna verticalizada (como dizia a minha saudosa primeira professora…) a alma abre janelas e portas e areja, deixa entrar o ar puro e sair aquele que está saturado. Respira livremente. Lentamente. Profundamente.

E os mantras? A repetição de palavras, de sons, que nos ajudam a concentrar e a tomar consciência do nosso corpo, do aqui e do agora, daquilo que realmente é importante. Um bálsamo para a alma!

Cuidar da alma é também cuidar do corpo. Dar atenção ao corpo é estar atento à alma. Os problemas de um têm implicações no outro. Alma e corpo relacionam-se tão intimamente que se ressentem ao mínimo desassossego…

São tão só um só!

 

 

 

 

 

 

 

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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