TSUNDOKU: A ARTE DE ACUMULAR LIVROS

por José Carreira | 2018.08.10 - 11:31

 

“Amiga não julga? Essa é a terceira maior mentira da civilização moderna. A primeira é que nunca comprámos um livro só pela capa. A segunda é que nunca deixámos de comprar um livro porque ele tinha uma capa absolutamente horrenda.”

(Irina Chilas, IN Vogue Portugal, julho de 2018)

 

Pela primeira vez comprei um exemplar da revista Vogue Portugal, a edição de julho de 2018. Motivo: “Vítor Leitão, engenheiro de formação, tem 62 anos, já foi sem-abrigo e agora trabalha como modelo. Está na capa de julho da edição portuguesa.”.

Ao explorar a revista deparei-me com um excelente artigo sobre livros, na secção Lifesyle, que analisa a importância da estética da capa:

“O peso que se põe numa capa é inimaginável. Há anos que deixou de ser uma mera proteção do miolo do livro para se tornar os olhos que dão entrada direta para a alma.”

O último livro que comprei, na livraria Victor Jara, em Salamanca, dá força à tese do artigo da Vogue Portugal. Uma capa simples, mas capaz de captar a minha atenção, com três pequenas aves e um ramo florido que emolduram a palavra “Cuidar” que dá o título à obra da Geriatra Ana Urrutia Beaskoa. Num segundo momento, peguei no livro e li o subtítulo: “Una revolución en el cuidado de las personas”. Não resisti ao impulso da compra, sem que antes ouvisse a voz do bom senso: “Vais comprar mais livros? Já leste tudo o que tens em casa amontoado?”

Vivemos numa era paradoxal, no que ao objeto livro diz respeito, há cada vez menos leitores e menos livrarias (ainda não digeri o encerramento da Cervantes, emblemática livraria da mesma cidade) e nunca houve tantos livros editados nem tão numerosos autores…

Sou consumidor de livros e de jornais em papel, os ambientalistas que me perdoem.

Gosto do cheiro, do tato, do ritmo de leitura, de sublinhar, do marcador, de procurar o livro na estante da livraria, de comprar o jornal na tabacaria e poder comentar a atualidade com quem está do outro lado do balcão ou na fila para a raspadinha…

A minha mãe vem passar uns dias de férias comigo e, estou absolutamente convicto disso, questionará: “Já leste estes livros todos? Porque continuas a comprar sem que tenhas tempo para os leres?”

Desta vez estou mais tranquilo, já tenho um conceito que ajudará à justificação das minhas compras instantâneas e empilháveis: TSUNDOKU, uma espécie de “bibliomania”.

TSUDOKU é um termo japonês que traduz a arte de acumular livros por prazer e descreve a sensação de se ter um espaço com livros empilhados pelo simples prazer de os ver. A palavra vem dos vocábulos ‘tsunde-oku’ que significa acumular coisas e ‘dokusho’ que significa ler livros.  

Ainda não conclui a leitura do livro “Cuidar: Una revolución en el cuidado de las personas” … e já está encomendado o novo do historiador e investigador Yuval Noah Harari – “21 Lições Para o Século XXI” … Obrigado Mariana!

Ups… ainda não terminei o “Homo Deus: História Breve do Amanhã”; “Cair para Dentro” do Valério Romão; “A Arte da Vida” de Zigmunt Bauman; “Em Busca da Memória” de Joseph Jebelli; “Tecnologia versus Humanidade” de Gerd Leonhard; “O Segredo da Longevidade” de Henrik Ennart; “A Política em Tempos de Indignação” de Daniel Innerarity; “O Cérebro de Himmler Chama-se Heidrich” de Laurent Binet (perdão Paulo) … (Perdoado, José Carreira…)

A palavra a quem sabe:

No geral, eu diria que a filosofia do design de capas de livros deverá espelhar o poder da literatura, que é o facto de as coisas mais extraordinárias da condição humana estarem no quotidiano.” (Andrew Howard)

Sempre imaginei o paraíso como um tipo de biblioteca” (Jorge Luís Borges)