«Truman», uma reflexão sobre a amizade…

por Amélia Santos | 2016.06.02 - 17:25

 

A semana passada vi um filme maravilhoso de nome “Truman”, com Ricardo Darín e Javier Cámara. Este filme conta a história de dois amigos de infância que, no presente, se encontram separados geograficamente por um oceano, Thomas (Javier Cámara) vive no Canadá e Julian, interpretado por Ricardo Darín, vive em Madrid. Estes dois amigos reencontram-se em circunstâncias muito particulares, já que Julian está doente com cancro e na fase em que, confrontado com o alastrar da doença a outros órgãos, decide interromper os tratamentos de quimioterapia e esperar que o destino se cumpra sem passar os derradeiros dias de vida em hospitais. O amigo vem do Canadá propositadamente para passar com ele quatro dias, em que lembram os velhos tempos, celebram a grande amizade que sobreviveu a todas as distâncias e se despedem…

A excelência das interpretações dos dois atores acrescenta ao filme uma grandeza peculiar, (sobretudo a de Ricardo Darín, de quem sou absolutamente fã…) que resulta da mistura da tragicidade da morte que se aproxima, com toques de humor e particular delicadeza. É um filme tocante e divertido, dramático e belo, que nos faz rir e chorar…

Gostei tanto do filme! Mas o que nos prova que um filme não serviu só de entretenimento é quando ele nos acompanha no caminho para casa e dialoga connosco. É quando ele nos faz rir, já passadas umas horas, ao recordar algumas cenas ou frases cómicas. O que prova ser este um filme poderoso é quando ele nos faz sair da tela ou do ecrã e nos obriga a pensar. Pensar no que nos foi apresentado e representado, mas também na nossa vida e na morte, porque, efetivamente, a primeira só chega a fazer verdadeiro sentido quando temos a consciência de que a morte se aproxima. Só nesse momento nos “cai a ficha” e reavaliamos a nossa breve passagem por este mundo.

No meu caso, ainda enternecida com o gesto de Thomas, que vem do Canadá para passar quatro dias intensos e inteiros com o seu amigo, dei por mim a pensar nos meus amigos e nos gestos que os vão individualizando ao longo da vida. Nos que estão longe e nos que estão mais próximos. E coloquei-me a inevitável questão: qual deles faria por mim uma viagem grande para se despedir, para celebrar uma amizade, para a sublinhar nos derradeiros momentos? Provavelmente, muito poucos. Provavelmente um ou dois ou três, cujos nomes e gestos assinaláveis acorreram agora à minha memória… Mas talvez dois ou três sejam, na verdade, muitos. Bastava que fosse um para me compensar de uma vida inteira, para fazer valer a pena toda uma amizade.

Mas gestos de abnegação e altruísmo, sem nada pedir ou esperar em troca, estão em vias de extinção. Porque as desculpas são sempre boas nestes casos. É sempre perdoável que um amigo não venha ao nosso encontro, mesmo quando já não nos vê há muito tempo. Porque temos que compreender! Ser amigo é, antes de mais, aceitar o outro e a sua indisponibilidade. A sua vida azafamada e cansativa. E o seu comodismo. E o seu egoísmo. Ser amigo é hoje, na maioria dos casos, só compreender e aceitar. Já quase não existe esforço para estar, nem nada que dê muito trabalho. Muito menos, sacrifícios… Tem que ser apenas prazer, curta distância, alguns jantares e festas…

Tolentino Mendonça dizia na sua crónica de sábado passado que “usamos os outros em função das nossas necessidades: verdadeiramente não os encontramos”… e que isso será consequência de um empobrecimento que a aceleração da vida moderna nos traz ao olhar… o que nos vai desobrigando rapidamente uns dos outros e da realidade… Verdades que se vão agravando e agudizando com a evolução tecnológica e com as ilusórias redes sociais…

Interessante, porém, foi colocar a questão inversa. Por quem faria eu essa mesma viagem de fim de percurso? Talvez coincidam os nomes que me assaltaram anteriormente. Tenho a secreta certeza que, pelo menos um deles, é intensa e reciprocamente sentido, e percorreria, tal como eu, muitos km para me ver e, quiçá, para comigo chorar…

Certo, certo, é que no funeral, o defunto-amigo, já não vê, nem se enternece, nem fica grato! Tarde de mais para aparecer…

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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