todos os dias a mesma coisa

por Maria José Quintela | 2017.06.21 - 10:11

 

 

ligas a televisão. mais do mesmo. desligas. ficas a remoer um tremor. temor pelas imagens de morte. horror. há mortes e mortes. e mortos revistos em alta. é assim que agora dizem. a mesma linguagem para os mortos e para o déficit. não certamente por contensão de palavras. a dor do próximo provoca-te dó. às vezes um nó. consoante a distância do coração. às vezes sentes culpa. não sabes bem de quê. mas uma coisa é certa. a morte sem intimidade dá belas imagens. lá isso dá. às vezes também dá prémios. que bem ficava um prédio em chamas emoldurado na parede branca da tua sala. ligas de novo a televisão. tiras o som. a repetição das imagens é mórbida. ou talvez não. talvez tenha o propósito benigno da anestesia. vais deitando o olho. enquanto dás a ferro as camisas. ou lavas o chão. a tua casa cheira a flor de laranjeira. vais olhando para o ecrã. a medalha no peito dos heróis. que bonito que é. só no recato tardio do silêncio emerge uma explicação para o impulso voyeur. e não. não são os genes que os cientistas descobrem todos os dias para justificar gostos e desgostos. é a atroz mentira da vida. diariamente retratada e vastamente comunicada no ecrã. nem tu saberias falar tanto e tão bem da morte. dos milagres sim. esse conduto quotidiano dos deserdados. todos os dias a mesma coisa. ligas o som da televisão. confirmas os óbitos e as lágrimas. as verdadeiras e as outras. insossas. disfarçadas em discursos plagiados de boca em boca. com a empatia de um acidente voluntário na voz. olhas o relógio no pulso. já é meio dia e ainda não foste ao facebook. desligas a televisão. o cão da vizinha da frente ladra que se farta. fica todo o dia fechado na varanda. e ainda há quem pense que leva vida de cão. começas a contar os dias. o gato espreguiça-se. faltam três dias para sexta-feira. o que não te rala rigorosamente nada. excepto se for dia de pagamento. o salário mínimo centra-te na realidade. marcas o cabeleireiro. a manicura. a esplanada. o banho de sol. e logo se vê. talvez um trapinho. queres-te na moda. como o país. tudo serve para elevar a estima. ouves um estardalhaço no andar de cima. ligas a televisão. ninguém muda o mundo. o que podes tu fazer? abster-te de perguntas que estilhacem a tua fé. todos os dias a mesma coisa. é dura a vida quando tudo o que acontece é trivial. lá longe a morte mexe com a vida. lá isso mexe. mas não é com a tua.