Sintonizar o sofrimento autista

por Maria José Azevedo | 2019.12.21 - 11:44

Maria José Vera*

        A falha na intersubjetividade primária

        O homem é de todos os animais aquele que mais brinca, sendo a imitação parte do jogo e da brincadeira inicial entre o bebé e a mãe a qual constitui um percursor da orientação para a intersubjetividade.

        A procura da intersubjetividade encontra-se presente na cria humana, de uma forma primária, desde o nascimento, por isso se denominou este tipo de intersubjetividade desenvolvida nesta época da vida por intersubjetividade primária. Esta última regula-se pelo princípio da correspondência (Trevarthen, 1993) entre os seus dois intervenientes: o bebé e a mãe. Baseia-se esta correspondência na coordenação recíproca das respetivas expressões faciais, na regulação de movimentos, na antecipação das intenções da díade, facto que dá ao observador a noção da existência real de um diálogo entre a mãe, ou outro adulto, e o bebé que com ele interaja intimamente. É esta intersubjetividade primária, representativa das bases para a vida psíquica, de relação e de partilha constituintes do humano, que está fracassada desde cedo no autista e que a nova relação analítica vai reedificar.

        A perturbação da imitação precoce

        Preparada à partida para viver numa matriz intersubjetiva, a cria humana tem uma aptidão inata para apreender o mundo e os aspetos do mundo que se oferecem a ela. Segundo Meltzoff e Moore (1977,1999) trata-se da aptidão de imitação precoce, mediante a qual o bebé absorve algo do mundo inanimado, ou levando à boca o objeto ou imitando, sobretudo se o objeto a incorporar for uma pessoa. Esta imitação precoce assenta numa outra capacidade, frequentemente danificada no autista, que reside na distinção clara que se deve estabelecer na mente do bebé entre o mundo animado e o inanimado. Assim, o bebé intersubjetivo terá interesse em copiar modelos humanos ou que deles se aproximem (de que são exemplos os casos de algumas bandas desenhadas, humanizadas), enquanto o bebé autista ou em vias de constituição do autismo, ao não fazer a clara distinção entre o mundo animado e o inanimado, não só não imita, como o pode fazer de forma distorcida e bizarra. Um exemplo é o caso de o corpo da criança adquirir uma rigidez estranha, facto que pode constituir uma imitação das propriedades de fortaleza e de dureza de um carrinho de brincar.

        Uma visão autocentrada

        A imitação precoce está ainda perturbada na criança autista por uma outra dificuldade, a que decorre da sua incapacidade em constituir uma visão alocentrada, ou seja, em conseguir colocar-se do ponto de vista do outro. Tal limitação representa uma incapacitação na aptidão basilar para o estabelecimento da empatia para com o outro, inviabilizando ainda mais a comunicação e a partilha futura com aquele.

        Deste modo, a criança autista só consegue imitar unicamente a partir do seu ponto de vista e nunca a partir do ponto de vista do outro, tornando impossível, por exemplo, o jogo infantil das palmadinhas (neste jogo o autista vira as palmas das mãos para si próprio, e não as costas das mãos, porque está a copiar a imagem das mãos que ela vê, e não a imagem que é vista do ponto de vista do interlocutor com o qual está a brincar (Braten, 1998; o resultado é oferecer ao contacto com as palmas das mãos do outro as costas das suas mãos).

        Outras expressões representativas do estranho mundo não intersubjetivo no qual o autista vive são o evitamento do contacto visual, a ausência de responsividade, a incapacidade ou o desinteresse na comunicação verbal e não verbal, enfim, o seu desinteresse em ler a mente do outro, o qual, como desenvolveremos adiante, representa ainda a introjeção do desinteresse do objeto.

        O bebé autista, no final do primeiro ano, embora seja capaz de apontar o objeto que lhe interessa obter, não o faz nem com o propósito da partilha emocional, nem tão pouco com o propósito da partilha do interesse daquele objeto. Não rejubila, olhando o outro para partilhar daquela fruição.

        Assim, o uso da imitação com finalidades terapêuticas, a imitação terapêutica, no caso do autismo, tem provado (Reignier, 2019), por via supletiva do défice instalado, ser um instrumento privilegiado do qual o psicoterapeuta se pode munir, com a moderação e a sensibilidade adequadas que respeitam a falha do desenvolvimento em causa.  

        Bases neuronais de suporte à intersubjetividade   

        Revestindo-se o acesso à intersubjetividade de tão capital importância, quer para a constituição do indivíduo e formação da sua subjetividade quer para a sua sobrevivência em grupo, ele vai dispor de mecanismos específicos que lhe irão permitir sentir, pensar, intuir o que o outro pensa e sente, para fazer uma leitura recursiva permanente da mente do outro e com ela dialogar: saber o que o outro pensa, sente, imagina, como o outro sente a sua própria experiência intersubjetiva, ou seja, saber o que outro sente que estamos a pensar ou a sentir, etc.

        Alicerces neuroconstitucionais existem, tais como os neurónios-espelho e os osciladores adaptativos que fornecem as condições biológicas, neurais, para o estabelecimento da intersubjetividade primária, com as suas componentes de sincronia. A sincronia é a forma precoce de sintonia afetiva na qual está já presente uma componente imitativa. Deste modo, a sincronia subjaz a toda a relação humana e dela não tomamos consciência a não ser quando ela falha. Tomamos como exemplos, da sua presença em tarefas do quotidiano, falar com outro ou em grupo, sem atropelos, lavar a louça, caminhar ao lado de outro, estender e apertar a mão num cumprimento, beijar, etc.

        Falha da sintonia, fracasso da empatia

        A esta intersubjetividade primária segue-se, no desenvolvimento ontogenético, a intersubjetividade secundária, a qual dará origem à verdadeira empatia. O bebé que dispõe dessa natural empatia percebe a brincadeira da mãe que lhe mostra a língua, e a ela reage, tentando imitá-la; o bebé distingue, num gesto inesperado de toque no seu corpo, se aquele gesto é ou não uma brincadeira, podendo sorrir após um pequeno segundo de hesitação durante o qual efetua uma leitura da mente da mãe ou do pai, procurando saber a causa, para encontrar, neste diálogo, qual a resposta adaptada. Vemos, por exemplo, nesta sequência, o bebé franzir o cenho de imediato, olhar o adulto, procurando o que foi aquilo, tentando ler a intenção ou a causa da história. O adulto então sorri e implicitamente responde: – Não é nada, bebé. – O alívio e, quiçá, o sorriso iluminam, então, a face do bebé.

        Perturbado em todo este espectro, o autista só pode aprender cognitivamente a comportar-se socialmente sobre o que seria esperado dele que sentisse ou fizesse, se possuísse essa capacidade de natural empatia para com o outro. É neste mundo de agonia psíquica, impensável de viver, que o autista habita.

        Vinheta clínica

        Relembro uma menina autista de cinco anos que segui por largos anos. Era uma criança na qual os pais haviam investido muita atenção na educação, tentando suprir com o seu cuidado o que na intersubjetividade precoce falhara. A criança não olhava o outro, temendo-se, por muito tempo, que ela tivesse alguma séria perturbação visual que complicasse o quadro. O evitamento do contacto ocular fora total durante os dois primeiros anos da psicanálise. 

        Num dado momento, já representativo de muito progresso, ela pegou na minha mão como se fosse a sua, conduzindo-a à sua boca. Momento de grande impacto emocional para a analista que foi, naquele instante abençoado, abençoada pelo olhar da criança, o qual, até então, sempre lhe havia sido recusado. Esse gesto comunicativo, de autorizada incorporação oral, assinalava o início do encontro entre as necessidades pulsionais, as do interior da criança, com o objeto externo e os seus elementos de cuidados maternos, alcançando naquele gesto, não somente uma experiência psiquicamente satisfatória, um interesse pelo mundo exterior, assim como uma relação social rudimentar com a mãe-analista, inaugurando desse modo o nascimento psíquico. Concordamos com Klein (1921) quando nos diz que a sede de conhecimento é um motor do desenvolvimento afetivo e também com Bion (1961) quando nos fala do encontro entre a preconceção e a realização para o começo da vida psíquica.

        Aquele gesto representava uma imitação precoce na qual estava já presente a distinção entre o mundo animado e o inanimado, embora usasse a minha mão como um objeto, mas constituía já um esboço de comunicação intersubjetiva, um esquisso de um novo continente analítico a ser introjetado, uma semente da flexibilidade e da suavidade da relação com o analista a poder germinar no interior do sujeito.

        Metendo-me na sua boca olhou-me, não só para me conhecer enquanto gesto precoce do bebé que leva à boca o objeto do mundo a conhecer, como também para me sondar o íntimo a seu respeito: espelho meu, estás aí, tu alguém, para mim? E o leve sorriso que se lhe seguiu confirmou a resposta.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BION, Wilfred R. (1991[1961]): Uma teoria do pensar in Melanie Klein Hoje. Desenvolvimento da teoria e da técnica Vol. 1, Elizabeth Bott SPILLIUS (ed.), Rio de Janeiro, Imago Editora LTDA, pp.185-193.

BRATEN, S. (1998): «Infant learning by altero-centric participation : The reverse of egocentric observation in autismo», in S. BRATEN (ed.), Intersubjective Communication and Emotion in Early Ontogeny, Cambridge University Press, pp.105-124.  

KLEIN, Melanie (1996 [1921]) «O desenvolvimento de uma criança» in Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945), Rio de Janeiro, Imago Editora LTDA, pp 22-75. 

MELTZOFF, A. N.; MOORE, M. K. (1977): «Imitation of facial and manual gestures by human neonates», Science, 198, pp.75-78. 

MELTZOFF, A. N.; MOORE, M. K. (1999): «Persons and representations: why infant imitation is importante for theories of human development», in J. NADEL e G. BUTTER-WORTH (eds.), Imitation in Infancy, Cambridge University Press, pp. 9-35.

REIGNIER, Sylvie (2019): «Les évolutions du pas-de-deux thérapeutique avec l’enfant autiste: comment conquerir la souplesse, comment ajuster la contenance?», in conferência Journées à Lisbonne da SEPEA,18 de outubro 2019, subordinada ao tema Les defenses autistiques et leurs expressions du début de la vie à l’adolescence.

TREVARTHEN, C; HUBLEY, P. (1978): «Secondary intersubjectivity: confidence, confiders and acts of meaning in the first year», in A. LOCK (ed.), Action, Gesture, and Symbol, Nova Iorque, Academic Press, pp. 183-229.

TREVARTHEN, C (1993): «The self born in intersubjectivity: An infant communicating», in U. NEISSER (ed.), The Perceived Self, Nova Iorque, Cambridge University Press, pp. 121-173.


* Nome literário de Maria José Martins de Azevedo, psicóloga, psicoterapeuta, psicanalista e escritora.

Maria José Azevedo, é psicóloga clínica, psicoterapeuta e psicanalista. Foi fundadora da Sociedade Portuguesa de Rorschach e Métodos Projetivos, da Associação de Psicoterapia Psicanalítica na Infância e nos Jovens e da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica. É membro da International Psychoanalytical Association, da European Psychoanalytical Federation e da Société Européenne pour la Psychanalyse de l’Enfant et de l’Adolescent.

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