«Silêncio», que se quer ver o filme!

por Amélia Santos | 2017.01.29 - 18:03

 

Esta semana fui ao cinema ver o filme “Silêncio” de Martin Scorsese e, ironicamente, estive cerca de uma hora à espera de silêncio na sala para ver o filme com a atenção merecida. Pois, já não me lembrava de ter tido uma experiência tão má no cinema. Fiquei perto de um jovem casal que tinha no seu regaço um caldeirão de pipocas interminável, onde mergulhavam as mãos de minuto a minuto para arrebanhar um punhado das ditas e encher as respetivas bocas, dando seguimento ao gesto com um ruminar ensurdecedor e incomodativo. Estive à beira de entrar num transe neurótico. Vi-me no limiar de cometer um crime, entenda-se, abandonar a sala ou mandar um berro.

Compreendi como é que a nossa atenção pode ser roubada à tarefa mais interessante, quando temos barulhinhos irritantes e insistentes por perto. As pessoas que comem pipocas no cinema não se dão conta, decerto, do incómodo que causam aos que partilham o mesmo espaço para ver um filme. Ainda por cima quando o próprio filme tem momentos de descrição, silenciosos, e que se pretende sejam absorvidos pelo espectador nesse ambiente de tranquilidade e sossego.

Na verdade, estive desassossegada toda uma hora, na esperança que aquilo parasse. Cheguei a tapar um ouvido com a mão, mas também isso era insustentável. Olhava para eles, furiosa, numa tentativa de lhes fazer entender que me estavam a incomodar, a mim e a toda a gente que estava na sala. Ouvia de vez em quando um pigarrear de alguém que parecia enviar também uma mensagem subtil, implorando silêncio, por esta via, mas nada!

O ritual repetiu-se à exaustão: meter a mão no caldeiro, movimentar todas as pipocas que estão lá dentro, produzindo o som grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr. Depois, seguia-se o som de ruminar, trincar, trincar, trrrrrtrrrrrtrrrrtrrrrrtrrrrrr.

Olhava para o filme, que falava da fé cristã e interpelava Deus, invocando algum milagre que pusesse fim àquela saga. Já que não se fazia um milagre, virei-me para o meu lado mais demoníaco e roguei uma praga silenciosa ao casal desrespeitador… Que tivessem uma forte dor de barriga, uma disenteria, uma congestão. Mas nada. Talvez um engasganço ou um dente partido. Nada. Talvez enjoar? Aquilo é tão doce… Nada. O ritual mantinha-se alternando os grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr, quando mergulhavam no boião e os trrrrrrrrtrrrrrrrrtrrrrrrrrrrrrrtrrrrrrrr, quando ruminavam as ditas. E eram dois a repetir este esquema.

Não é possível, pensava! Houve um momento em que vi a rapariga pousar o caldeirão no chão e suspirei de alívio… Desenganei-me um minuto depois, foi só para libertar as mãos e beber Coca-Cola. Retomou o ritual logo de seguida. Não me pode estar a acontecer isto, dizia para mim. E tentei ser tolerante, afinal de intolerância estava o filme cheio… Mas acho que o sentimento de intransigência foi ganhando terreno em mim e, a certa altura, já me via uma autêntica japonesa a querer torturar aqueles dois, persegui-los, vingar-me de toda aquela “religião” que julga ser normal interferir com a liberdade dos outros a troco de satisfazer os seus desejos mais gulosos e alarves…

Um filme que deveria desencadear o melhor de mim, acabou por fazer exatamente o contrário, fazendo despontar laivos de aversão ao barulho. De repugnância pelo egocentrismo. De repulsa pela falta de educação.

É tão bom ouvir o silêncio, mesmo que seja o silêncio de Deus!

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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