SERÕES NA BEIRA…

por Cílio Correia | 2017.03.20 - 01:49

 

 

 

Certa noite saí para tomar café. Um ritual. O frio era grande. O vento gélido resfriava a ponta do nariz. Levantei a gola do casaco, seguindo a recomendação da minha mãe: – “Não vás assim desargolado, aperta-me esse casaco!”.

A meio do caminho, começaram a cair umas grossas pingas de chuva, parecidas com cubos de gelo e que prenunciam uma bátega. Dei uma corrida mas, mesmo assim, cheguei ao café onde já havia um fogão de lenha, no lugar da lareira, com uns troncos de pinho a arder.

Lá fora, caia uma chuva diluviana. Esgalhava a bom esgalhar. Tirei o cachecol e o casaco que coloquei nas costas duma cadeira. Sacudi as calças. As botas estavam humedecidas, mas não tinha os pés molhados. Ajustei-me ao ambiente.

O café estava cheio. Pelos vidros embaciados não se via quase nada. Apenas se enxergava uma estrada negra, húmida e um poste de iluminação publicitário com um “S” da Sacor. No interior pairava um ambiente cinzento, espesso, proveniente da fumarada dos cigarros e da lenha do fogão: assim que baixava a intensidade, mais umas cavacas para alimentar o braseiro.

Junto ao fogão, estava um homem de fora. Não arredava pé da lareira. Já ninguém suportava o calor. Mas ele, nada. Ali permanecia, sentado, como que pregado à cadeira, mesmo quando o braseiro era vermelho-vivo.

No lado de dentro do balcão estava o empregado, o Alberto, com apurado sentido de humor. Servia os clientes, nem era preciso pedir. Circulava entre as mesas com destreza. Rodopiava a bandeja com mestria e conseguia, manter as chávenas cheias. Um desafio.

Ao passar, piscou o olho esquerdo: – Ora aí vai uma bica, bem repenicada… – inclinando-se para sussurrar -, conhece aquele marmanjo, junto ao fogão?!..

Acenei com a cabeça, em sinal negativo. E prosseguiu em surdina: – Aquele tipo hoje vai sem calças para casa. Vou dar lenha ao bicho…

Fiquei curioso. Entretanto, o Alberto, ia dando lenha ao fogão. O braseiro era forte. O homem não arredava, quieto, vermelho que nem um tição e teimoso que nem uma mula. A dada altura, decidiu, finalmente, levantar-se, e ficou com as calças a abanar. O pano estava queimado, do joelho para baixo. O calor tinha-as estraçalhado. Sem se desmanchar, tomou um ar sério, deu dois passos na direção do balcão, pagou e saiu de fininho com as calças às tirinhas…