Sernancelhe é assim…

por PN | 2018.04.08 - 18:26

 

Pois é e felizmente que os últimos 30 anos de política autárquica colocaram a terra de Aquilino na rota nacional da Cultura.

Ontem, sábado, dia 7 deste pouco primaveril Abril, integrado no festival “Tons de Primavera”, que tem no seu cartaz do desporto ao teatro e à literatura, passando pela música erudita, tivemos a oportunidade de assistir a um esplendente recital de piano, por André Cardoso, intitulado,  “Para uma destra Mão Esquerda”.

O pianista, fruto de uma queda de cavalo e fractura da omoplata direita, não ficou inactivo e, durante o tempo da convalescença, empenhou-se em composições de grandes mestres, todas elas concebidas para a mão esquerda, por infortúnios plurais sucedidos.

Devo fazer uma declaração de intenção: Conheço o André há muitos anos e ouço-o actuar sempre que posso, desde a Aula Magna da Universidade de Aveiro a este Auditório, passando por muitos outras salas de espectáculo. Sou amigo de seu pai, José Mário Cardoso desde a longínqua década de 70. Mas tal não cega na capacidade de apreciação e de fruição da grande competência de que André dá provas, na sua superior harmonia, técnica e virtuosismo, no seu total empenhamento e devoção e, agora, no seu denodo na superação da adversidade que, e pela parte positiva do “infortúnio” lhe trouxe competências acrescidas.

O Auditório Municipal estava cheio. E isto apesar de haver jogo do Benfica… Heterogéneo, o público. Faixas etárias dos seniores aos juniores, ou não tivesse Sernancelhe a Academia de Música e o Conservatório Regional de Ferreirim, numa aposta autárquica de sucesso.

 

Segundo a explicação prévia a que acedemos: “ Neste concerto serão apresentadas obras escritas apenas para a mão esquerda. Este tem sido um repertório ausente das salas de concerto que surpreenderá o ouvinte com invulgares texturas sonoras. Fazendo justiça ao ditado ‘a necessidade aguça o engenho’, os desafios de tocar e compor apenas com e para uma mão permitem em simultâneo a redescoberta da alma do piano e a reinvenção do seu mundo imagético.”

 

André Cardoso interpretou uma Chaconne, Bach/Brahms; Prelúdio e Nocturno, op.9, de Alexander Scriabin (compositor há muito estudado pelo pianista); Para a mão esquerda, Vasco Negreiros; Resignação, Viana da Motta, em estreia mundial desta peça escrita pelo compositor aos 12 anos de idade; Estudo Sinfónico, de António Victorino d’Almeida, escrita pelo compositor para ser interpretada por André Cardoso no Festival da Primavera de Viseu, 2017.

 

O músico teve o cuidado de, pedagogicamente, explicar previamente cada composição e brindou o auditório com uma exibição de enorme nível artístico, surpreendente sonoridade e a síntona harmonia habitual.

O vereador da Cultura, Armando Mateus, apresentou o recital e a sua integração no festival “Tons de Primavera”. No final, o presidente do município, Carlos Silva Santiago enalteceu a exibição de André Cardoso, músico internacional com o berço em Sernancelhe, onde nasceu em 1982.

André Cardoso tem licenciatura em piano, fez a École Normale de Musique de Paris onde obteve o “Diplôme d’Exécution”, o “Diplôme Superiéur d’Exécution, o “Diplôme Supérieur de Concertiste e a “Classe de Perfectionnement”.

Tem ministrado masterclasses em Portugal e no estrangeiro e enquanto progride com o seu doutoramento na Universidade de Aveiro, exerce a docência no Conservatório de Angra do Heroísmo.

Foi uma noite magistral.

Seguiu-se um “Beberete Aquiliniano”.