SER OU NÃO SER … BEIRÃO!

por Cílio Correia | 2017.03.16 - 10:31

 

 

 

Confesso que sentia inveja quando via amigos de infância rumar às praias nas férias grandes e eu ficar pela minha aldeia. Sou parte de uma geração para quem ter férias na praia era um luxo a que nem todos se podiam dar.

Ficava pela aldeia, de férias, a brincar às escondidas, trepar às árvores, a andar à fruta, apanhar cachos, a saltar ao eixo, ao “lá’vai alho”, a descobrir casas arruinadas em busca de mistérios insondáveis, a explorar minas ou buracos abandonados, enquanto não chegava a hora de jogar à bola na rua, brincar aos cowboys com pistolas de madeira ou atirar o pião.

Tenho redescoberto, entretanto, alguns desses lugares e recantos, onde era capaz de andar de bicicleta, arranhar as pernas, dar topeiradas, ganhar negras, romper as calças, mexer na terra, ser arranhado por urtigas, ir aos míscaros, vindimar, pisar uvas, ir ao rabusco, trincar maçãs, comer romãs e tangerinas, ir às cerejas, assistir à matança do porco ou de ver a maceira onde a minha avó preparava a massa para cozer o pão de milho no forno de lenha.

A minha terra está diferente. Perdeu algum do encanto. Deixou crescer o musgo nas paredes e nos muros. Reina o silêncio nas ruas estreitas onde outrora havia ranchos de miúdos, no final da tarde. Está mais vazia. Modernizou-se, dizem.

Há uns anos, não imaginava fazer assim um retrato da minha aldeia. Tenho vindo a ganhar um maior gosto por ela e, até, pelas ruas que vou calcorreando, descobrindo-me a cada passo, ainda criança, montado na minha bicicleta verde com três mudanças, da marca “triumph”, e uma campainha estridente.

Aqui e ali ainda sinto o cheiro das febras e das sardinhas assadas nas ruas, ao fundo das escadas, numas trempes em cima dum braseiro, dos bolos de bacalhau da minha mãe, acabados de fritar no azeite a ferver, e do gosto de um arroz branco no forno de lenha, separado grão a grão. Sinto-me parte da minha aldeia e daquele imaginário a que se costuma dar o nome de «ser beirão».