Sentido do dever

por Norberto Pires | 2015.06.13 - 13:52

Anda toda a gente a falar da TAP usando a sua privatização como argumento político e, com bandeirinha no ar, a fazer de claque ao seu partido, como se o país, o seu futuro, se resumisse ao um interminável jogo de futebol. Uns aplaudem e gritam de alívio, outros gritam aqui d’el rei que quando ganharem o poder vão anular o negócio. Lamento. Na verdade não se sabe nada ou sabe-se muito pouco sobre os planos que tem o consórcio selecionado para a companhia.

Os argumentos que vejo serem esgrimidos são confrangedores de tão amadores e fico pasmado com as declarações públicas do “vendedor”: quer vender rápido porque a TAP é um problema, se não for privatizada já vai falir, é mal gerida, está em colapso financeiro, está insolvente, os trabalhadores são um problema, etc., etc., etc. É como um tipo querer vender uma casa e publicar no anúncio de venda que ela está a cair, mete água, tem ratos, do ponto de vista estrutural tem falhas graves, se não for vendida já pode não aguentar o próximo inverno e confessar ainda que neste momento não tem condições para suportar o empréstimo que contraiu para a comprar. Mais amador era difícil.

Eu gostaria de saber o que é a TAP neste momento, de forma séria e rigorosa tendo por base fonte oficial (não incluo artigos plantados nos jornais numa vergonhosa campanha de desinformação). Quanto vale e quais são os seus ativos. Quanto deve e qual é a composição do seu passivo. Quais os resultados do grupo e uma análise séria do que precisa para se desenvolver. Não entendo que a TAP tem de estar na esfera pública, mas entendo que o património do Estado e os interesses de Portugal têm de ser defendidos com o máximo de rigor e que disso deve ser dada nota pública com todo o detalhe.

O que tenho visto e lido é vergonhoso e mostra uma total ausência de estratégia. Uma coisa é considerar, e eu considero isso, que o Estado não deve deter empresas de transporte. Não as sabe gerir, nem isso faz parte da sua missão. Outra é ter empresas desse tipo que nunca foi capaz de gerir com eficácia, ter acumulado dívida devido à péssima gestão e incapacidade de decisão, e no limite dos limites, sem qualquer racionalidade, desatar a desvalorizar essas empresas com atitudes e declarações infantis, típicas de contos de crianças, e vender em desespero porque a situação se tornou insustentável.

Mas ainda mais grave é dizer, perante a situação de insustentabilidade da TAP, que ou vendíamos agora ou eram os contribuintes a pagar a dívida acumulada (que por acaso até tem vindo a ser reduzida). Como se isso fosse alguma novidade ou critério para alguma coisa em Portugal. Relembro aos doutos decisores nacionais que o BES era um banco privado. O BPN também. E quando colapsaram, por má gestão e pura fraude (dos quais no caso BES ainda nem há acusados), os contribuintes foram chamados a chegar-se à frente e pagar (pagamos o buraco do BPN e adiantamos dinheiro ao BES – logo se vê qual será o valor líquido a pagar). De qualquer forma a fatura tem sido gigantesca.

Aos portugueses só relembro a condição de cidadania e o dever de olhar sempre para o interesse nacional. Tudo o resto é assessório.

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal “Robótica”. Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

Pub