Sem orgulho e sem preconceito, seria bem melhor…

por Amélia Santos | 2018.07.12 - 17:03

 

A vida coloca-nos muitas vezes em situações difíceis, onde temos que decidir entre manter o nosso orgulho intacto, firme e inabalável ou ceder perante ele e revelar aquela que é a mais poderosa marca do ser humano: a humildade. Ser humilde é aceitar, antes de mais, a própria fraqueza emocional, os nossos erros, a nossa pequenez… Aquela pequenez que escondemos do mundo como se se tratasse do mais terrível dos segredos… E, de tanto a ocultarmos, esquecemos quase sempre que ela vive dentro de nós e que turva e perturba o veloz julgamento que fazemos dos outros.

 

Por vezes, passamos uma vida inteirinha a cuidar do nosso orgulho, como se de uma criança se tratasse. Mimamos e protegemos tanto esse fedelho que não permitimos que ele consiga sair de si mesmo e se examine à luz da maturidade que só a experiência nos traz… Não deixamos que o orgulho se canse dele próprio, dos seus excessos, e que extravase, se purifique como forma maior de amadurecimento.

E, quando sentimos esse inestimável orgulho de alguma maneira ferido, a mais humana e natural das reações é levantar o dedo crítico da autoridade que consideramos ser inquestionável e apontar o erro, acusar e culpar, julgando de uma assentada. Mas o orgulho não pode, não deve, apenas crescer como planta que se rega e se fertiliza e se exibe exuberantemente perante os outros… O orgulho deveria ser cuidadosamente educado. Deveria ser alvo de muitos ralhetes e algumas palmadas. Deveria ter ficado de castigo e ter sido devidamente punido no momento certo. Só desta maneira, qual criança selvagem, o orgulho poderá ser corrigido, repreendido e doseado…

Atrevo-me a dizer que o único orgulho saudável é aquele que é bem formado. Aquele que, não abdicando da humildade e dignidade, continua ali para nos manter de pé frente às adversidades. Um orgulho sem preconceito. E, sem preconceito em ter orgulho!

No entanto, só o tempo e o somatório de experiências, normalmente as negativas, nos podem ajudar a compreender, a refletir e a aprender. Há momentos em que sentimos que nos rasgam a alma, nos espatifam o coração e ultrajam a razão… A nossa grandeza moral, a tal humildade, residirá em conseguir estar disponível para ouvir, ouvir o outro, o nosso “algoz relacional”, as suas motivações, ou ausência delas, os argumentos, as razões…e com isso aliviar o coração, lavar a alma e, certamente, atenuar o sofrimento, porque, em última análise, tratar-se-á de dar também uma oportunidade a cada um de nós… será uma oportunidade de expurgar e limar os excessos!

Não resisto à tentação de citar uma frase do magnífico romance de Dostoievski, Os irmãos Karamasov, em que a certa altura o irmão mais novo, Aliocha, depois de ter sido atacado com violência por um garoto, diz: “Não é possível que eu não lhe tenha feito algum mal, senão ele não me teria magoado assim.”Eis o enigma que Aliocha vai tentar desvendar… Até na história do capuchinho vermelho, ouvir o ponto de vista do lobo, dar-nos-ia outra versão da mesma …     Eis o desafio para cada um de nós no alto do nosso orgulho: dar uma oportunidade, desvendar os mistérios da frieza, da impulsividade e agressividade dos humanos, daqueles com quem lidamos no quotidiano e de nós próprios!

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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