Salazar discursa, os corredores treinam e os dirigentes organizam

por Nuno Rosmaninho | 2019.10.22 - 22:51

Em 25 de Junho de 1942, Salazar falou ao país por intermédio da Emissora Nacional. Queria explicar aos portugueses como se haveria de realizar a defesa da pátria. Não estando Portugal envolvido no conflito militar, sua excelência o presidente do Conselho de Ministros expendeu os seus pontos de vista sobre a defesa económica, moral e política. Fez muito bem. A sua inteligência sistemática ofereceu aos muitos cidadãos analfabetos uma posição coerente, que eles não entenderam mas apoiaram. Presumo que Belisário Pimenta escutou com atenção as palavras do ditador. Não gostou, porque não está na Situação, mas esqueceu-se de pôr as impressões no diário. Andava muito ocupado com o seu artigo sobre Camões. Passou os quinze dias subsequentes à transmissão radiofónica no mais absoluto silêncio diarístico, apenas interrompido para comentar o desaparecimento do busto de António Nobre, do Penedo da Saudade.

Três dias depois da voz de falsete ter ecoado nas telefonias, que alguns tinham a sorte de dispor na sala de estar, a Alemanha lançou a grande ofensiva contra os soviéticos. Estes voltaram a ser surpreendidos.

Na Bairrada, estava assente que em 19 de Julho, domingo, decorreria o Circuito da Curia, para o qual se anunciava a presença dos «melhores ases nacionais» do Sporting, da Iluminante, do Futebol Clube do Porto e do Sangalhos, e a disputa de quatro «valiosas taças» (Zenith, Veleda, Ómega e Junta de Turismo da Curia). No dia 2 de Agosto, haveria o III Circuito da Bairrada, uma longa prova de 170 quilómetros, e no dia 3 os ciclistas andariam por Mealhada, Pampilhosa e Luso a disputar o Circuito da Mealhada. São provas muito seguidas. O corredor que estiver numa não conseguirá apresentar-se na outra. Tanta falta de provas e, afinal, juntam duas?

Nuno Rosmaninho