“Sabes mãe…”

por Anabela Silveira | 2018.05.05 - 21:26

Sabes mãe,
quando aquele livro pleno de
traços
que não dominava
repousava na mesa
de madeira escura
ou no teu regaço, mãe,
já nem sei bem
passavas a tua mão
esbelta e fina
nos meus caracóis desalinhados
e dizias
naquela voz sempre tão calma
Um dia, filha,
estes traços que agora te olham
tão misteriosamente
serão a tua companhia

Depois
virando a página
de mansinho
apontavas para uma
gravura colorida
e lias, lias
até a penumbra inundar a
mesa
o teu regaço, talvez
cansado
deitava a cabeça no teu colo
e sem mexer os lábios
pedia
conta mais, mais,
conta …
Hoje mãe,
que bem se cumpriu
a tua profecia
mas, sabes,
tenho saudades
desses dias ainda
tão claros
em que os traços
indecifráveis dos livros
se apossavam de mim…
Olha, mãe,
deixa-me deitar a minha
cabeça cansada
no teu ombro ausente
e conta-me outras
estórias de ninar
conta, conta mais, mais
conta, mãe …

Anabela

Foi professora do 2º ciclo do ensino básico, leccionando HGP. É licenciada em História, Mestre em Historia da Educação e Doutorada em História pela UP. Como investigadora, integra o Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

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