“Risco Sistémico”

por Alexandre Borges | 2017.10.22 - 14:10

 

 

Nos últimos anos, anos pré-troika incluídos, fomos bombardeados com notícias de bancos com problemas e da necessidade imperiosa de os “salvar” pois, caso não o fizéssemos, corríamos um sério “risco sistémico”, um tremendo “risco de contágio”, a toda a economia, que seria destruída. Esse discurso e essas políticas levaram a que fossem “injectados” – assim tipo fármaco milagroso – mais de quinze mil milhões de euros (ou talvez bem mais), nessas empresas criminosamente geridas, para proveito de uns quantos privilegiados. Isto sem que ninguém até hoje, quase uma década depois do início, tenha sido verdadeiramente condenado e pago por este regabofe. São mais de mil quinhentos euros por cada português transferidos. Dinheiro pago que permitiu estilos de vida imorais, comprar decisões políticas, etc… Dinheiro que serviu para branquear má gestão e “salvar” empresas e acionistas que ainda enchem a boca e páginas de jornais, com o discurso liberal hipócrita, de menos intervenção estatal.

Dou comigo a pensar que é uma pena que os decisores não enveredem, no caso dos incêndios e da desertificação do interior do país, por o mesmíssimo discurso do “risco sistémico”. Que bom seria para a economia, a coesão territorial, a coesão nacional, os radicalismos políticos, a desertificação, etc., que as mesmas razões fossem defendidas e a intervenção do Estado fosse similar à que foi no caso da banca.

Que bom que era que o que tivesse ardido fossem herdades de Ricardo Salgado, de Granadeiro ou Zeinal Bava, de Rendeiro ou de Horácio Roque. Que bom que era que tivesse sido a herdade da Coelha ou a de Dias Loureiro. Seriam os mesmíssimos 520 mil hectares de território nacional – deixemos os mortos de fora que são coisas demasiado sérias para fazermos aqui trocadilhos irónicos – e seríamos seguramente todos muito mais generosos para recuperar essas áreas e essas economias. É o passado recente que o comprova. Assim, como não foram, a coisa será bem mais modesta. E como lembra a nossa maior “popstar” – o que nunca fez no caso da banca – neste caso temos de nos preocupar com o défice.

 

Natural de Canas de Senhorim. Licenciado em geologia pela UC.
Virulentamente bombeiro.
Gosta de discussões cordiais, de vaguear pelo mundo munido de auscultadores.

Pub