RIO DAS NOGUEIRAS

por Cílio Correia | 2017.03.22 - 10:36

 

Depois de uma noite de chuva intensa, tocada a vento, quase um vendaval, como já não via há muito tempo, fui dar uma vista de olhos, logo pela manhã, até ao rio das nogueiras.

O rio tinha-se tomado de brios, desprezou as margens e encarregou-se de reclamar o leito de outrora. E não é que o basófias, na ponte da laje, parecia mesmo um rio a sério?!… Um espanto.  Andava tudo num alvoroço. Trouxe-me à ideia tardes ali passadas no tempo em que o rio fazia uma pequena albufeira, antes da histórica ponte da laje, perto do Casainho. Era a piscina natural da aldeia com águas límpidas e transparentes.

Há cerca de 40 e tal anos, por altura do verão, fazia parte do quotidiano da rapaziada pegar na toalha, nos calções, ir passar as tardes no rio a dar banho â minhoca. Ao fim de semana, havia quem ali fosse por outras razões, lavar-se e dar uns mergulhos, depois de bem ensaboado.

O rio continua a ser conhecido pelo nome de batismo mas, já na altura, nogueiras, nem vê-las. Admite-se a sua existência, mas sobravam apenas meia dúzia que não justificavam tal ênfase. De qualquer modo, era assim conhecido: rio das nogueiras, afluente do Dinha.

Ali cresceu um daqueles sítios onde na época estival se podia tomar banho duas vezes nas mesmas águas, contrariando o ditado popular. Os anos passaram, o rio foi definhando, e hoje apenas aparece na época das chuvas, mais como uma enxurrada passageira.

Mais abaixo, pouco depois do improvisado pontão e da ponte, na margem direita, ficava o moinho do falecido Antero Moleiro, hoje arruinado.

Havia nadadores exímios no salto para a água e no mergulho com calções colados ao corpo, quando não eram cuecas de abertura lateral que enchiam de água e ficavam pelo caminho descobrindo as partes mais intimas.

Na margem esquerda, estava um penedo a servir de trampolim. Nas imediações, um juncal, atrás do qual se mudava de roupa, como num balneário. A tarde era longa. Levava-se um lanche para comer esticado ao sol, nas margens ervadas, que também serviam para as lavadeiras estenderem os lençóis e cobertores acabados de lavar, torcer e bater na pedra. A roupa branca, mais intima, ficava exposta ao sol, a secar e corar.

A aldeia era quase uma família, as portas ficavam abertas, sem receio de malfeitorias e, quando alguém batia à porta, logo se dizia, “entre quem é!” Hoje não. Sinal dos tempos.