“Ratos” urbanos

por PN | 2019.09.20 - 10:02

“… peu-être,  le jour viendrait où, pour lhe malheur et l’enseignement des hommes, la peste réveillerait ses rats et les enverrait mourir dans une cité heureuse.”

Camus, Albert – “La Peste”, Gallimard, 1947

Muitas cidades por esse planeta adiante foram há muito tomadas pela malta dos “esquemas”.

Às vezes, basta apenas um indivíduo estar em decisório lugar e ter as suas “fraquezas”, elas serem conhecidas (ou dadas circunstancialmente a conhecer pelo próprio ou alguém com essa função dentro da sua “entourage”), para que um bando de abutres comece a esvoaçar por perto, em círculos cada vez mais apertados, à espera de cair sobre a presa, em busca do seu quinhão.

Sabem que ali há repasto a repartir e basta-lhes conhecer o “periscópio” certo para, como numa encriptada seita, penetrar no elo uniente dos ungidos do decisor.

O problema ou um dos problemas é essa “clientela” ter tendência à avidez. E de repente a teta tornar-se escassa para tantas bocas esfaimadas. Daí, do devotado amor ao porfiado rancor, é curto o passo. Num instante, as “fraldas de fora” começam a voejar à brisa cálida do sussurro. Os arrulhos de então transformam-se em carpição das comadres desavindas. E só há um meio de lhes calar o murmúrio… Mais, sempre mais! Porém, o momento chega em que o seco e exaurido úbero deixa de ter a vital seiva para tanta insaciável voracidade.

Os “rabos de palha” deixam de caber nas calças anchas, começam a emergir – quase de geração espontânea, por incontido rancor – e a nitreira fica à vista exposta. O mau cheiro, de tão nauseabundo infesta os ares.

É o princípio do fim e surge então o derradeiro recurso, a fazer-nos lembrar o rei Filipe IIº de Espanha, Iº de Portugal, de cognome “O Prudente”, pio e carniceiro que, à sua morte, mandou celebrar 60.000 missas por salvação da sua encardida alma.

Ainda hoje não sabemos o resultado… nem temos a certeza se 60.000 missas chegaram a lixiviar as atrocidades do soberano que efemeramente chegou a ser o homem mais poderoso do mundo de então. Certo é haver sempre quem as celebre a troco do respectivo honorário.

Claro que estamos a referir-nos a cidades como Mogadíscio, na Somália , Cartum, no Sudão, Asmara, na Eritreia, Dushanbe, no Tajiquistão e tantas outras por esse mundo fora…

Paulo Neto