Raiz do Mal

por PN | 2019.11.28 - 14:11

Ninguém hoje tem dúvidas de que um malefício devastador tomou conta da sociedade portuguesa. A vida de todos quantos lutaram pela liberdade está nas mãos de um punhado de indivíduos. E a liberdade relativizou-se, uma vez que a “democracia” encontrou novas formas totalitárias e eficazes de estrangular o cidadão.


A primeira década superveniente ao 25 de Abril desorbitou-se nos inevitáveis exageros de qualquer revolução ou evolução acelerada. Mas tinha uma elite de políticos tarimbada na oposição dos anos 50 e 60, com grande postura intelectual, cívica e moral.


A partir de meados de 80 e início da década de 90 desabrocham os dirigentes que perceberam que a política não era uma missão, um curso de vida, mas sim uma comissão e um recurso por explorar.


Começaram a chegar ao poder os oportunistas com o seu séquito infindável de lugares-tenentes e a sua clientela inesgotável de duvidosos lóbis e onerosos encargos. Vem a adesão à comunidade europeia e com ela chegam os dinheiros fáceis. Surgem os subsídio-dependentes. De repente, em muitos cérebros fez-se luz: o Estado é um ubero pródigo. Vamos abocanhá-lo, convidar familiares e amigos para os tetos sobrantes e sugar o leite todo.
A democracia que tem nos partidos políticos a essência da sua liberdade tem hoje, nos partidos políticos, em geral e salvo honrosas excepções, a escória dos indigentes: gente que nunca fez nada fora da política, que nada sabe fazer no mundo sério e árduo do trabalho, gente norteada por valores como o individualismo, o amiguismo, o arranjismo, a cupidez e a venalidade.


E depois, de repente, percebemos que a nossa liberdade está nas mãos desta cáfila de arrivistas de duvidoso saber, parca competência e desmesurada gula.


Mas o remanescente de políticos sérios que ainda vamos encontrando, descrente do partidarismo descabelado que tem as duas facetas, na sua bi-polaridade de Dr. Jekyll e Mr. Hyde percebe, com toda a clareza e até, com as mudanças vertiginosas ocorridas no último meio século, que este estado da política braceja moribundo seus estertores no pântano onde caiu, pelo seu pé ligeiro e cabeça deslumbrada.


Num sistema assim gasto, o Estado que devia servir os cidadãos, tornou-se em seu sibarita proxeneta. A-social e medíocre, arrogante e atrevido como todos os ignorantes tem os dias contados.


Hoje, os conceitos alteram-se de um dia para o outro – os jovens são quem melhor o percebeu – e estará para breve o momento em que os cidadãos acabem com o decadentismo partidário e se assumam em movimentos supra-partidários, com uma ética republicana nova, com valores morais sólidos e com inabalável espírito de missão.


Será esta, naturalmente, a única via de salvação da democracia e que deve começar de dentro para fora, das autarquias para o Terreiro do Paço, mostrando, sem equívocos, que o Homem é superior à alavanca de um partido inexoravelmente consumido pela sua mediocridade e ganância.
Aquilino, premonitoriamente, há 70 anos falava no “homem novo”. Não numa perspectiva de arianismo tenebroso, sim num enfoque do Homem com saber, com princípios, com missão e devoção.


O Homem de hoje levou o país à rastejante desgraça, ignóbil subserviência e aviltante miséria. Provou o que valia. Por quê e até quando mais do mesmo?

Nota: Texto escrito em finais de 2012

Paulo Neto