Queres Dinheiro? Vai ao Povo…

por Alexandre Borges | 2017.05.04 - 17:43

 

 

Em certo calão linguístico “os Almeidas” são os trabalhadores (ou deverei dizer colaboradores?) que andam na recolha do lixo (ou resíduos sólidos urbanos?) e, talvez por isso, por preconceito e por desconhecimento histórico do que é Portugal e do seu território, a Caixa Geral de Depósitos, mais um dos bancos do sistema financeiro português com problemas decidiu fechar a agência de Almeida. Desta feita foi um banco que é detido a 100% pelo Estado.

Nada de muito extraordinário, que estamos fartos de ver serviços muito mais essenciais no interior de Portugal. Foram e/ou são centros de saúde, repartições finanças, postos de polícia, postos de correios, juntas de freguesia, balcões da segurança social e casas do povo, entre outros, num movimento de concentração centralista que tem em conta o interesse de meia dúzia que amealham dinheiro em desfavor de populações e do que devia ser o país.

Dizem-nos que é a racionalidade económica que impõe estas decisões sem alternativa. É a TINA (there is no alternative) que nos dita o que fazer, afirmam, enquanto abandonam à desertificação território que antes foi conquistado a sangue, também ali em Almeida.

No concelho de Almeida há uma outra agência da CGD, em Vilar Formoso e, portanto, caso resolvido, pensarão. Esta forma de abordar as questões não deixa de ser engraçada e é a mesma que levou a que se concentrassem serviços apenas nas sedes de concelho quando muitas vezes isso não fazia grande sentido. Portugal é efectivamente uma grande cebola de centralismos concêntricos e todos nos queixamos deles que abominamos e, simultaneamente, promovemos. Aqui del’rei que Bruxelas favorece a Alemanha, que só há dinheiro para Lisboa, que para o Porto nunca falta dinheiro e assim sucessivamente, à medida que nos aproximamos do núcleo da cebola.

O fecho deste balcão é especialmente irónico porque, seguramente, os contribuintes de Almeida (e de tantos e tantos locais que não têm acesso a um balcão da CGD) serão chamados a pagar os dislates de certos senhores que obrigaram a “restruturar” a Caixa. Neste caso, como em tantos outros, o país já é uno e indivisível, e o principio do utilizador pagador, tão caro por exemplo nas portagens da sem alternativas A25. Engraçado como empresas como os metropolitanos de Lisboa e do Porto, com tantos milhões de prejuízo não fecham e até são expandidos. Visões certamente inspiradas no pragmático e oriental “um país, dois sistemas”.

Os custos do palácio, ao estilo do Dubai, que no Campo Pequeno serve de sede ao nosso banco dariam certamente para pagar para manter mais que 180 agências abertas, que seguramente dão lucro, mas não o que os ditadores financeiros acharão adequados. Seguramente que lá na João XXI caberão todos os espaços que a CGD se propõe fechar.

 

(foto DR)

Natural de Canas de Senhorim. Licenciado em geologia pela UC. Virulentamente bombeiro. Gosta de discussões cordiais, de vaguear pelo mundo munido de auscultadores.

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