Quem tem um Avô tem tudo…

por PN | 2018.08.26 - 22:43

 

 

Tenho muitas e gratíssimas recordações de um dos meus avós. O paterno, pois o materno, naturalizado francês, viveu no estrangeiro meio século, com ele pouco ou nada privando.

 

A Casa do Avô é também, e em justa homenagem ao ascendente, o restaurante do Pedro Loureiro, na Sarzeda, em Sernancelhe. Amesendo lá com frequência, embora o “Chef” e a Filipa me tenham hoje quase apodado de infiel, por justificadas faltas de assiduidade.

Vamos por partes.

Há muito que constatei ter Sernancelhe muitos encantos. Aquilino encabeça-os. As gentes secundam-no. A Autarquia trata a Cultura com maiúsculas. O património é um encanto. A gastronomia um deleite.

Casos assim, de tão auspicioso e conjuntivo sucesso, não os há cabonde… talvez por isso, rara seja a semana em que os meus peregrinos pés não me guiem à Lapa, à Tabosa, ao Carregal, ao Freixinho, ao Granjal, a Fontarcada… e por aí fora.

Os enchidos são de truz, o cabrito de assobios, a doçaria de loas… a martaínha, essa, em ajuste à renomada fama granjeada…

Mas há mais, muito mais. Carecerá o leitor de tempo e persistência para descobrir.

Voltemos ao almocinho, neste domingo de canícula aferroada, saído de Viseu para ir ali para os lados de Foz Côa e desaguado, por misterioso imperativo, na Sarzeda. Estes algoritmos emocionais são danados.

Depois de ouvir as reclamações do Chef Loureiro, logo pela Filipa acolitado, começámos com a macieza exaltante de um presunto com triguinho de mistura, aquele bem apessoado em cama de fina lousa e este numa velha peneira de farinha, a darem o cordato mote.

O que se lhe seguiu ficou ao critério do chef, que soberanamente decidiu:

Um arroz rico e corrido de cabritinho de si mesmo enxundioso, ademais sanchas e castanhas. Harmoniosa, a tortulhada muito terrenha. A castanha a fazer jus à fama e o chibinho de sápida tenrura. Em matéria de temperos, o Chef é dado à temperança e segue conselhos do bispo Alves Martins. O palato não se ofende e a matéria prima, na sua qualidade, com agrado rejubila.

A vitelinha assada no forno de lenha, onde ardem nobres, a macieira e o carvalho, chegou em seu ponto. Rúbida do colorau e tomate, com o tomilho e o alecrim a ajudarem ao festim. A batata alongada, de conteúdo farinhento, talvez da leira ao lado, traz acertado assadio e as migas, do Alentejo subidas, se universalizadas, com broa amarelada, couve do quintal e british bacon, portaram-se com galhardia.

A sobremesa, bem, nem vou escrever muito: dois gelados reais, uma barriga de freira (porque se chamará assim?) e um abade de Priscos – abençoada clerezia – deixaram-me em paz com a humanidade.

O serviço é prestimoso e amável. O preço é justo.

Ah! Quer o telefone? Aqui lho deixo mais as coordenadas: 968 693 936; 40º54’25.7”N,27’33.8”W.

Ainda reclama mais? Meta-se à estrada…sff.