Quanto custa ser a nº 1?

por Maria Sobral | 2015.05.21 - 23:03

 

Desde 2012 que a estação do grupo Media Capital, a Rádio Comercial, ultrapassou a sua concorrente direta, a RFM, não só no valor de audiência acumulada de véspera (A.A.V.), mas também no respeitante ao share e ao reach semanal. Basicamente o que se subentende de tais termos técnicos, é que a Rádio Comercial é a mais ouvida em Portugal.

Antes de assim ser, já era ouvinte assídua no carro, facto que se alargou às emissões em podcast de rúbricas como “O Homem que mordeu o cão” e “Mixórdia de Temáticas”. Se a Rádio é feita de vozes, seguramente a Rádio Comercial é feita das vozes das pessoas certas e da sua criatividade genial, que muitas vezes nos conduz por um humor absurdo, óbvio e que de tão escaganifobético se torna adictivo.

A Rádio da “música do ano 2000 em diante” é moderna, jovem, cheia de boas escolhas, e é de salientar o seu contínuo esforço, em divulgar a música portuguesa e em português em quantidades consideráveis. Mas isso do 2000 em diante para mim, que sou da geração do grunge e dos movimentos dos 90´s traz-me alguma tristeza, e considero até uma desvantagem à partida, pois há clássicos incontornáveis, e nem toda a música actual é efectivamente boa. O chavão resulta assim numa repetição algo maior do que o desejável com certas bandas, certas músicas e certos estilos.

Depois de apontada esta desvantagem, na minha opinião, surgiu uma ainda maior que me tem levado a fazer uso dos botões do rádio e a mudar de estação (algo que não acontecia antes de ser a rádio mais ouvida); os anúncios publicitários. Ou melhor, as carradas, as paletes, as resmas de anúncios, que nem só pela quantidade pecam, cerca de metade pecam mesmo pela não qualidade ou entenda-se, pela não adequação ao estilo que esta rádio conseguiu impôr a si própria.

Se têm bons comentadores, bons cómicos, bons contadores de histórias, boas vozes, boa programação, porque não são mais exigentes com o tipo de anúncios? Mas principalmente, e agora remeto-me para o título do artigo, será que para se aguentarem como nº1 e manterem o staff de topo, a pressão económica os leva a venderem tanto do seu valioso tempo de antena?

Sabendo que de certeza a resposta a este tipo de perguntas assenta mesmo na necessidade (exigência) financeira, passo a dar dois exemplos que penso são bastante exemplificativos deste meu desabafo.

Moro numa aldeia que dista 11 km da sede do concelho, onde trabalho. Normalmente estes poucos quilómetros demoram cerca de 10 a 15 minutos a percorrer, e muitas são as vezes que a Rádio Comercial me brinda todo o caminho com publicidade. Sim! Perceberam bem, vou de casa ao trabalho e volto sem ouvir música…

E agora a piéce de resistance, o segundo exemplo, numa viagem que faço regularmente a Vila Real, 80 Km de distância, cerca de uma hora de viagem, aconteceu uma vez na volta aquilo que me levou a escrever este artigo, e a colocar no título uma total indignação. Num bloco da parte da tarde, quando não há rúbricas de relevo, ou simplesmente não se considera pico para audiências pois não é hora de deslocações para e do trabalho, verifiquei que neste período de uma hora de viagem, ouvi três (3) singelas musiquinhas, que ainda por cima tinha coincidentemente (ou não) ouvido na viagem da manhã! Essas 3 musiquinhas tiveram a duração total máxima de 12 min, o que implica que eu ouvi pelo menos 48 minutos de publicidade!!! Ou melhor, como escolher o vendedor da banha que me emagrecerá em menos tempo…o melhor anti descongestionante para as vias nasais, o melhor laxante, e mais uma quanta parafernália de produtos extremamente interessantes e alusivos ao mundo radiofónico e musical, como se pode facilmente perceber.

Depois de apresentados estes meus argumentos, não de peso, mas de tempo, tempo gasto a ouvir desperdício quando apenas ansiava boa música, só me resta voltar a perguntar e agora responder:

Quanto custa ser a nº 1?

Pelos vistos muito! Muito mais do que o que merecíamos. Depois da qualidade genérica da nossa televisão, em que a TVI (leia-se parolada aculturada) lidera e dá cartas, era de esperar que ao menos a rádio não desapontasse…tanto.

Geóloga por graduação e afeição telúrica natural.
Formadora na Escola Profissional de Sernancelhe.
Técnica dinamizadora do Centro Interpretativo Aldeia da Faia.
Promotora de consciência ambiental e cultural.

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