Quando os ratos invadem cidades felizes

por Paulo Neto | 2019.01.20 - 11:29

 

 

“…l’obstination finit par triompher de tout”

 

… dizia Rambert, personagem do célebre romance de Albert Camus, “La peste”, Gallimard 1947, a propósito de uma peste que tinha, subitamente, surgido em Orã, no litoral mediterrânico da Argélia, durante a década de 40. “Un lieu neutre, pour tout dire”.

De repente, uma cidade pacífica, feliz, soalheira, onde se vivia com gosto, apesar de não ser pitoresca, ter pouca vegetação e não ter alma, adormecida no embalo dos séculos, vê-se invadida por ratos.

Insólitos ratos a aparecerem por toda a parte, escuros, fugidios, traiçoeiros, ameaçadores. Uma invasão repugnante. Com eles vieram febres e gânglios que atacavam as pessoas e nelas, todos os dias cresciam até as matarem.

A epidemia num ápice alastrou. Os ratos, no início tímidos, começaram a desembocar de todos os esgotos fétidos da cidade e, num à vontade inusitado, a passear-se pela urbe com um desplante a tudo imune.

Aos dias de paz, sucederam-se dias brumosos. Aos dias brumosos seguiram-se chuvas diluvianas. Um torpor morno estendeu-se por toda a cidade. O tempo da morte.

Os ratos, esses, impávidos, continuavam a espalhar a peste por todo o lado. Foi uma calamidade e, se no mundo houve tantas pestes quanto guerras, ambas devastadoras, de repente, na cabeça dos homens que pensam, instalou-se a dúvida: e se a peste suprimisse o futuro? E a certeza ficou: ninguém é livre enquanto houver uma calamidade.

A peste existia. Quem poderia detê-la? Só caçando nas sombras dúbias se eliminaria pela erradicação dos seus portadores.

Enfim, tempo passado, muita desgraça sobrevinda e muita desolação vivida, os ratos foram eliminados.

Nesse dia, um grito de alegria ecoou por toda a cidade, mas alguém se lembrou que ela estava sempre ameaçada, pois “o bacilo da peste nunca desaparece, pode ficar durante dezenas de anos adormecido (…) mas um dia virá, no qual para infelicidade e ensino dos homens, a peste acordará os seus ratos e os enviará para uma cidade feliz.” (trad. pessoal).