«Psicopatas do quotidiano»

por Amélia Santos | 2016.12.06 - 18:27

 

Há uns tempos ouvi na rádio uma entrevista a uma psiquiatra brasileira que editava, então, um livro em Portugal intitulado Psicopatas do Quotidiano. Ouvi com muito interesse aquilo que Katia Mecler, a autora e entrevistada, nos revelou sobre o teor do livro e sobre esses tais psicopatas do quotidiano e a minha atenção de observadora/detetive a todos os que me rodeiam (e a mim própria!) aumentou exponencialmente.

Quem são os psicopatas do quotidiano? Provavelmente, se pararmos um pouco para pensar, a todos nós nos ocorre alguém que, não estando diagnosticado com nenhuma doença do foro psiquiátrico, se nos apresenta em alguns contextos, como uma pessoa perturbada, estranha, fria e que, não raras vezes, torna num inferno a vida de quem com ela tem que conviver, seja a nível profissional ou seja a nível pessoal. Seguramente, recordamos um colega ou chefe ou temos na nossa própria família alguém com estes traços ou desvios de personalidade. Já não digo entre amigos, porque, à partida, os amigos escolhem-se e será difícil eleger um desses, digo eu… a não ser que nos caia na sopa, assim sem sabermos bem como…

Mas eu, ao ouvir esta entrevista, fui lembrando alguns rostos, algumas pessoas que conheci e outras que tendo conhecido mal, me foram descritas e reconhecidas desta maneira. É inevitável não fazer associações, recordar personagens dominadoras, intolerantes, pouco comunicativas, impulsivas, antissociais, e dar asas à imaginação…

O que eu sou é uma grande curiosa, uma insaciável consumidora de histórias de gente que foge à dita normalidade, mas que se encontram entre nós. Não é que os psicopatas dos filmes, os grandes criminosos presos, não sejam interessantes, claro que sim. Mas os comuns, aqueles que se movimentam livremente nas instituições, na rua, colegas de ginásio, os que estão ao nosso lado no concerto ou no cinema, esses estão revestidos de uma particular atração, porque vestem o fato da normalidade e muitos usam a gravata dos bem-sucedidos, adequada a cada situação…

No entanto, inevitavelmente, submeto-me à autointerrogação: Serei eu vista pelo olhar implacável dos meus “vizinhos” como uma psicopata do quotidiano? Será que todos temos um psicopata dentro de nós? É um bocadinho assustador imaginar que alguém nos olha dessa forma. Por um lado estou descansada. Não sou chefe nem patroa de ninguém! Uf… Provavelmente é este pânico de vir a ser assim rotulada que me faz detestar estar na chefia. As experiências não foram muitas, mas percebi que não é esse o meu território… Prefiro, de longe, ser bem-mandada. Bem-mandada, por alguém que sabe chefiar e liderar, entenda-se. Mas, infelizmente, já fui muito mal mandada… Já conheci alguns diretores e colegas com nítidos transtornos de personalidade e de conduta, o mesmo é dizer pessoas psiquicamente pouco saudáveis, cujo prazer maior reside em amargurar a vida daqueles que deles dependem. E conseguem. Conseguem tão bem que, muitas vezes, são essas vítimas as que recorrem a ajuda psicológica ou psiquiátrica. São essas pessoas menos doentes que eles, as que procuram os médicos psiquiatras. Irónico, não é?

Pois, parece haver aqui uma evidência, os psicopatas do quotidiano nunca devem ter parado para pensar na relação que mantêm com os demais. Ou nunca se deram ao trabalho de refletir sobre as suas atitudes, sobre a reação dos outros à sua presença. E quando pensam, acham que o resto do mundo é que está mal, que estão rodeados de gente incompetente, irresponsável e ineficiente. Serão os déspotas (ou despotazinhos), os opressores (ou aspirantes a opressores), os tiranos (ou pequenos tiranos), orgulhosos desta peculiaridade do seu carácter? Certamente. É um orgulho ser tão bom…tão bom de mau…tão bom a fazer de mau.

Comprei a semana passada o livro de Katia Mecler porque, na verdade, este título e tipo de psicopatas que convivem connosco todos os dias, nunca mais me saiu da cabeça. E a autora não desilude, fazendo o desenho daquelas que são as patologias que nos rodeiam e ensinando a lidar com elas. Não se assustem, todos temos direito a ter mau feitio, a estar pouco comunicativos, a ser explosivos, tímidos ou controladores. O problema é que algumas pessoas são sempre assim, exibindo de forma duradoura um ou mais destes traços de personalidade patológica. “Quem com elas convive tem uma sensação permanente de abuso, invasão e insuficiência”, diz Katia Mecler. Parece que nos sugam energia.

Empiricamente, reconhecemos que pessoas com este tipo de patologias tiveram experiências menos saudáveis, não foram educadas para a compaixão ou não foram beneficiárias de muitos afetos… Ou transportam geneticamente o peso de deformações e perturbações mentais difíceis de modificar através de vivências positivas e pelo meio social.

A nós, educadores de profissão ou por afetos familiares e outros, caberá estar muito atentos e contribuir para que, no futuro, os psiquiatras tenham menos clientela, ou mais, dependendo da perspetiva!

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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